Quarta, 26 Outubro 2016 00:00

Feiras livres 'invadem' condomínios, mas morador deve comparar preços

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Comodidade é o maior trunfo da iniciativa. Condôminos decidem sobre entrada de comerciantes.

Queijo, frutas, verduras, carne e pastel são produtos tradicionais das feiras livres, porém eles têm deixado as ruas e ocupado espaços privados dentro de condomínios de São Paulo. Para o morador, significa mais comodidade, que, ao mesmo tempo, pode dispensar o carro ou a caminhada para abastecer a casa com produtos perecíveis.

O vendedor Luciano Claudio França, 39 anos, monta sua barraca de queijo, juntamente com outras que oferecem artigos diversos, em seis condomínios diferentes em bairros como Morumbi, Interlagos e Raposo Tavares.

França conta que há um ano foi indicado por um amigo para vender seus produtos em um condomínio e, desde então, estabeleceu sua rede de contatos e passou a atender em outros locais.

— Hoje vendo menos na rua. A maior parte da minha renda vem da exposição em condomínios. Os moradores gostam da comodidade.

França garante que outra vantagem está no preço e na garantia de qualidade dos produtos.

— Eu compro o queijo em Minas Gerais. Não passa por atacadista ou revendedor. O mesmo vale para frutas e verduras, que saem mais em conta do que em mercados. O queijo frescal e a manteiga da fazenda são meus principais produtos. A peça de queijo frescal, de quase um quilo, eu venho por R$ 26, no supermercado pode passar de R$ 30, além de nem sempre oferecer um produto tão fresco e de qualidade.

Membro do conselho de um condomínio no Morumbi, o representante comercial Fabio Crisasilli, de 39 anos, foi o responsável por introduzir a feira livre para os moradores. Em um espaço vago, todas as quartas-feiras, é possível comprar diversos tipos de produtos. A iniciativa começou como um teste de um mês, mas a aceitação foi unânime.

— Todos adoraram. É muito cômodo. Não pega carro, o preço é próximo de uma feira e não tem o estresse. O grande chamariz da feira é o pastel e o caldo de cana.

Foi o dono da barraca de pastel, o feirante Sidney da Silva Miranda, de 48 anos, que deu a ideia da feira para Crisasilli, mas na maioria das vezes o caminho é inverso. Miranda explica que, geralmente, são convidados por síndicos ou administradoras de condomínios para exporem os produtos nos locais, que podem consolidar a prática ou abandoná-la.

— Às vezes, num primeiro momento, os moradores aderem à feira, mas depois perdem o interesse. Aí não descem, então tentamos ir aos fins de semana e feriados, que têm mais apelo.

O preço dos produtos também pode minar o sucesso da feira em condomínios. Preços altos fazem com que os moradores percam o interesse pelos produtos. Porém, esse encarecimento pode partir de certas cobranças que podem ser feitas no processo. França, o dono da barraca de queijo, explica que há condomínios que cobram um valor mensal de manutenção, para suprir gastos com limpeza, segurança e luz, e há, às vezes, a figura do agenciador, que é o responsável por fazer contato com os condomínios.

— Tem condomínio que cobra R$ 80 por mês de manutenção, mas isso não impacta tanto no preço, mas, às vezes, tem o agenciador, que cobra 10% do faturamento. Tudo isso junto encarece os produtos. Mas o mais comum é que não haja nenhuma dessas cobranças.

Assembleia

Quem quiser implementar o serviço de feira livre em um condomínio deve tomar cuidado para que não haja implicâncias jurídicas futuramente e também deve respeitar a vontade da maioria dos condôminos. Para isso, o indicado é levar o caso para ser votado em assembleia.

O diretor de Condomínios do Secovi-SP (sindicato da habitação), Sérgio Meira de Castro Neto, explica que, como a feira acontece dentro de uma área privada, a decisão tem que ser dos condôminos e, por isso, o ideal é levar todas as questões que envolvem a iniciativa para uma votação.

— A maioria tem que decidir. É importante ficar atento a questões como segurança e preservação do condomínio, para que no futuro não haja problemas jurídicos. Quanto mais detalhado o combinado, menos problema no futuro. Isso tem que ser uma solução e não um problema jurídico.

De acordo com Neto é preciso elaborar um contrato de prestação de serviço, para que fique definido os direitos e deveres de ambas as partes como, por exemplo, quem será o responsável pela limpeza, possíveis gastos, qualidade do produto.

A questão da segurança também é reforçada pelo diretor.

— São pessoas estranhas que passam a frequentar o condomínio. Tem que ter um controle sobre quem entra e quem sai, além de buscar referências do prestador de serviços em outros condomínios.

Não aprovar em assembleia uma iniciativa como esta pode fazer com que a durabilidade do serviço seja pequena e ainda cause desconforto entre os moradores.

O auxiliar de zelador Valter Júlio conta que o condomínio em que trabalha, na Mooca, zona leste de São Paulo, passou a oferecer o salão de festas para montar a feira todas as quintas-feiras. Porém, a feira não havia sido votada em assembleia e, no primeiro problema, teve que deixar de ser feita.

— Alguns moradores reclamaram do cheiro que a barraca de pastel exalava e entrava nos apartamentos. Não teve outra alternativa e a feira foi cancelada.