Como contribuir para que a felicidade faça morada nos condomínios? 

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Cuidar bem da edificação, investir nas relações humanas e integrar a comunidade favorecem um convívio mais harmônico e incentiva a colaboração com a gestão condominial.

Síndico representa o condomínio, gere finanças, faz cumprir regras, entre tantas outras atribuições, e ainda precisa pensar na felicidade da comunidade? Sim, precisa. Especialmente hoje, quando muitos condomínios desejam ter um síndico que, para além das questões inerentes à sua função formal, saiba ouvir os moradores e traduzir anseios em ações. Essa percepção do cenário atual é destacada aqui por Eliane Rasquel e Ana Josefa Severino, síndicas profissionais que atendem a dez condomínios cada — a primeira atua na zona sul e oeste de São Paulo; a segunda, em São Caetano do Sul, Santo André e São Bernardo do Campo. “Atualmente, moradores demandam maior atenção, querem se sentir cuidados”, constatam. 

Também o escritor, consultor empresarial e teólogo Ailton Tertuliano acredita que é preciso se preocupar com a felicidade em condomínios. Autor dos livros Síndico Gestor – Os 4 Pilares para uma Gestão Condominial de Sucesso e do recém lançado Síndico Chef – O Desafio da Gestão da Experiência, ambos pela Editora Bonijuris, Ailton expõe seu raciocínio: “Apesar de a legislação nos dizer que a gestão condominial é a gestão da coisa, eu defendo que é a gestão da experiência daqueles que decidiram viver em condomínio, ou seja, da experiência de quem adquiriu essa coisa. Então, as pessoas adquiriram uma unidade em condomínio para satisfazer um sonho, independentemente do momento de vida: recém-casados, na maturidade, aposentados. Portanto, a felicidade já está embarcada logo de início. Não tem como dissociá-la de condomínio.”  

Para assegurar a felicidade nos condomínios, naturalmente entra em cena a manutenção, a gestão financeira e operacional, a segurança etc., lembrando que a rotina com precisão é crucial para gerar satisfação contínua. “Quando eu estabeleço uma rotina saudável, dou oportunidade para que as pessoas vivam essa estabilidade no seu lar. A portaria funcionando, tendo água, tendo energia elétrica, o ambiente cheiroso, o jardim bem-cuidado, o hall limpo, os acessos todos funcionando, as pessoas felizes, os funcionários uniformizados, todos esses elementos são correlatos e paralelos para garantir a felicidade”, diz Ailton. 

A construção para entrega de uma experiência agradável ao condômino, na opinião de Ailton, acontece nos bastidores, o que se assemelha ao trabalho de um chef de cozinha, que só deixa o seu domínio se o cliente, feliz com a experiência gastronômica (aroma, sabor, asseio, bem-servir), solicitar sua presença à mesa para cumprimentá-lo. Inclusive, seu novo livro traz uma metáfora da gestão condominial inspirada na animação Ratatouille, cuja ação principal transcorre nos bastidores — no caso, a cozinha de um restaurante, onde o aspirante a chef Remy e o atrapalhado Linguini se unem no preparo de um prato básico, mas muito bem-feito, que encanta o crítico gastronômico Anton Ego. Ailton fala que, nos condomínios, as pessoas não estão esperando pelo sofisticado. “Mas o limiar de tolerância delas para o básico é muito pequeno. Se eu errar no básico, eu perco o jogo”, adverte.  

Aproximando pessoas 

Recentemente, a síndica Eliane Rasquel trabalhou literalmente nos bastidores por mais de 60 dias por conta de uma fratura no tornozelo. “Trabalhei de forma remota, mas senti falta de fazer as visitas, sou apaixonada por gente. Porém, como faço uma gestão humanizada, recebi muito carinho de todos os meus condomínios”, conta. Eliane tem como princípio incentivar o convívio gentil e respeitoso entre moradores e, para isso, considera vital promover a integração. “Quando as pessoas se conhecem e se reconhecem, o condomínio deixa de ser um prédio para virar um lar. Pode até não ter luxo, mas, se for limpo, seguro e organizado, e houver integração, tem potencial para ser feliz”. 

Eliane também “opera nos bastidores” para unir desafetos. Um caso ocorrido no Collina Parque dos Príncipes, condomínio-clube com 448 unidades administrado por ela desde 2017, ilustra bem a situação. “Havia duas mulheres que não se davam. Uma fechava a janela na cara da outra, que revidava, e a fervura só aumentando… Aí passei a falar das qualidades de uma para a outra, e vice-versa, e a apontar coisas em comum, como os filhos pequenos. Viraram grandes amigas, assim como os meninos.” Ela acrescenta que replicou esse modelo de união com sucesso em casos semelhantes. “Defeito todo mundo tem; melhor apontar as qualidades”, sentencia.  

Em outra ocasião, a síndica assumiu um prédio de estúdios habitados por universitários, que viviam em pé de guerra. “Conversei com eles, expliquei como funciona morar em comunidade e escutei suas necessidades. Queriam uma academia, e conseguimos montar uma que, apesar de pequena, virou o point, pois passaram a frequentá-la e a se enturmar. Também durante minhas visitas, sempre que um deles vinha falar comigo — se o assunto não fosse particular — eu puxava pelo braço quem estivesse por perto e trazia para a conversa. O entrosamento deu tão certo que até as assembleias ficaram tranquilas”, comemora. 

Para Eliane, a leveza do condomínio é um termômetro de felicidade do morador. “Você vê que a harmonia está fluindo quando sente a energia gostosa daquele lugar. Percebe que o morador nota que a gestão se preocupa com ele, que tem orgulho em pertencer àquele espaço”, avalia a síndica, adepta de envolver os moradores na organização de festas, eventos e campanhas de arrecadação para ONGs, nas quais “quem participa, doa e recebe fica feliz”.  

A síndica Ana Josefa Severino é outra entusiasta dos eventos e os organiza há 27 anos. “Os moradores apreciam e desfrutam de algo carinhosamente preparado para eles, como uma confraternização natalina. Sem contar que passam a conhecer o vizinho, alguns se tornam amigos e conseguem resolver entre si pequenos incômodos. O clima fica mais harmônico”, constata. A gestora também defende os eventos como forma de incentivar o uso das áreas comuns, parte do patrimônio conquistado ao adquirir um apartamento — o que, ainda, desperta o interesse pelas melhorias do condomínio.   

Neste ano, a síndica organizará em breve a comemoração do Dia Internacional da Mulher do Plaza Athenee, que começou no salão de festas do prédio, em São Caetano do Sul, e, nos últimos sete anos, passou a ocorrer em cafés da região. “As pessoas esperam por esse dia. Como mulher, sei o bem-estar que traz dedicarmos duas horinhas a um encontro com quitutes e bate-papo”, diz Ana. Premiada por decorações natalinas em fachadas dos edifícios, ela já se volta para a Páscoa: “Onde tem verba, instalo um coelhão de pelúcia no jardim; onde não tem, coloco um coelhinho, nem que seja no aparador do hall.” A Copa do Mundo também será tema decorativo, antecipa a gestora. “Decorações transmitem alegria, principalmente às crianças.”    

Um condomínio verdejante e florido também encanta o olhar. “Como há quem pouco circule pelos jardins, às vezes envio no grupo de WhatsApp a foto de uma flor que brotou, com uma mensagem de bom final de semana”, comenta a síndica.   

Ana destaca que a felicidade condominial inclui o bem-estar dos funcionários. “Eles devem ser tratados com respeito e contar com condições dignas, para que haja satisfação em trabalhar todos os dias no mesmo lugar”, arremata.         

Na ordem, da esq. para a dir.: Eliane Rasquel, Ana Josefa Severino e Ailton Tertuliano  


Matéria publicada na edição 318 janeiro 2026 da Revista Direcional Condomínios

Autor

  • Jornalista Isabel Ribeiro

    Jornalista apaixonada desde sempre por revistas, por gente, pelas boas histórias, e, nos últimos anos, seduzida pelo instigante universo condominial.