Vanessa Munis, 46 anos, é síndica profissional e advogada. Agora, lança seu primeiro livro sobre sindicatura

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“Tudo o que vivi me preparou para o ecossistema condominial”   

“A minha vida É um sonho realizado. Gratidão ao Universo. Houve um tempo em que eu sentia vergonha da minha história, que tem capítulos de privação financeira e humilhação. Agora, sinto orgulho até dos percalços, pois tudo me preparou para o ecossistema condominial. A minha missão é melhorar a vida em condomínios, inclusive a dos humildes que neles trabalham e precisam de quem olhe por eles. Já no campo pessoal, resolvi conflitos do passado com meus pais, casei-me pela segunda vez e ganhei três enteados, acrescentando mais páginas coloridas à minha vida. E, da união anterior, eu tenho o Pedro, fruto de uma gestação de risco. Pela medicina, o indicado seria interrompê-la; porém, preferi ficar seis meses em repouso absoluto e preservar meu bebê, hoje um jovem incrível, minha joia rara.   

Neste mês, comemoro 22 anos de atuação na advocacia (condominial e de família). Em abril, o programa ‘Opinião sem Muros’, idealizado e apresentado por mim, completa um ano na CondTV, no YouTube. Em junho, é a vez de celebrar 14 anos de sindicatura profissional. Olha quanta coisa boa! E agora estou lançando meu primeiro livro: ‘A arte de se posicionar no ecossistema condominial’. Posicionar-se é uma arte que pode ser aprendida e aprimorada. Síndico precisa se posicionar; ele é o líder da coletividade, não é concierge nem marionete. Quando eu assumo um condomínio, deixo muito claros os papéis de cada um e esclareço que pagar condomínio não é favor. A nossa carreira não é fácil. Lidar com pessoas que não tenham muitos valores e princípios para entregar é desafiador; até por isso, o síndico tem de se posicionar.   

O meu livro é também uma maneira de honrar minhas ancestrais. O meu sangue é misturadíssimo. Tenho antepassados árabes (Síria) e judeus (Letônia) do lado paterno; e holandeses e italianos do materno. Descendo de mulheres fortes, incríveis. Eu mesma fui educada para ser forte, desde criancinha. Saí ruiva como meu pai, que me preveniu sobre o bullying quando chegasse à idade escolar. Ele dizia que a cor do meu cabelo era bonita, mas pouco comum, por isso poderia causar estranheza. Enfrentei com firmeza apelidos como ‘água de salsicha’, em mais de uma escola. Sou de uma família paulistana que se mudava muito, entre bairros, cidades e até estados. Troquei bastante de escola. O meu maior temor era repetir de ano, então eu estudava muito para me adaptar ao ritmo de cada uma delas.   

Meus pais criaram a mim e aos meus dois irmãos mais novos para sermos organizados e ágeis. Quem fosse lerdo levava cada bronca! O meu pai atuava na área da segurança, e o salário cobria o essencial. Eu assistia ao Chaves comendo churros no clássico programa de tevê e morria de vontade de experimentar. Até que um dia meu pai me comprou um churro para dividir com meus irmãos. Amei e pedi aos céus: ‘Deus, permita que um dia eu possa comer quantos churros eu quiser’. Pois, sem planejar isso, o meu primeiro emprego formal, aos 15 anos, foi em um quiosque de churros, onde fui autorizada a comer quantos quisesse. No primeiro dia de trabalho, comi 14. No dia seguinte, mal podia sentir o cheiro.   

Por volta dos meus 14 anos, meu pai foi embora. Mesmo com a pensão, o orçamento ficou apertado, e comecei a levar e buscar criança da escola e a passar roupas para ganhar algum dinheiro. Também animava eventos infantis vestida de palhaço ou de Banana de Pijama, e fiquei extrovertida. Minha mãe fazia faxinas, e eu a ajudava, porque era rápida. Na hora de nos pagar, as madames nos davam sapatos velhos no lugar de dinheiro, o que era humilhante. Mais tarde, já fritando churros no quiosque, veio outra humilhação: a vendedora de uma loja de roupas do shopping não quis me atender, pois eu ‘era pobre e cheirava a fritura’.   

A tábua de salvação foram os estudos. Cursei Direito, onde me destaquei pelo meu perfil estudioso, e fui aprovada na OAB de primeira. Ainda na faculdade, fui morar com minha tia-avó paterna em Higienópolis. Então conheci um amigo dela, um belga riquíssimo, que estava de mudança para a Argentina com a esposa. Ele confiou a mim administrar suas finanças, vender seus bens e transferir-lhe o dinheiro. Propôs um contrato vitalício, que só cessaria quando nenhum dos dois estivesse mais aqui. A última etapa consistia em enterrar as cinzas de ambos juntos, em uma praça em Mar del Plata. Fiz tudo certinho. Ele foi um anjo na minha vida, ensinou-me a negociar, a mediar, a administrar.   

Já casada com meu primeiro marido, tornei-me síndica orgânica em uma implantação porque, antes, havíamos morado em um condomínio onde constatamos abusos e autoritarismo por parte da gestão, e eu não queria nada parecido na nossa nova morada. Durante cinco anos me dediquei intensamente ao condomínio, que era administrado pela GK; por isso, conheci o dono, o senhor Gabriel Karpat. Ele me falou que a sindicatura profissional precisava de gente com o meu perfil e me incentivou a abraçar esse mercado, oferecendo-me cursos gratuitos na empresa do Ricardo, filho dele.   

Em minha primeira concorrência para um condomínio, fiquei 40 minutos em pé do lado de fora do portão. Depois que fui recebida pelo corpo diretivo, enumerei tudo o que eu vira de errado ali durante a minha espera, como entregadores circulando desacompanhados de moradores, umidade na guarita e muito mais. Assim ganhei o meu primeiro contrato. Aí vieram outros. O bichinho da sindicatura te pica de tal forma que vicia, o que não é bom. Eu já me vi tão viciada, cuidando tão bem dos condomínios, que negligenciei a minha saúde. Outra lição: já sofri ameaças de agressão, no plural, em um mesmo condomínio, e entendi que existem coletividades que não querem ser ajudadas. Clientes assim devem ser demitidos.   

O síndico tem de saber onde quer ficar e saber reconhecer também que existe o tempo certo de permanência. Às vezes, você conclui que já colocou o condomínio em ordem, destruiu o covil de cobras, destronou conselheiros preguiçosos, desmantelou uma quadrilha, ajudou a prender um pedófilo; portanto, é hora de plantar sementes em outro lugar, de fazer justiça em outro condomínio. Porque eu creio nisso, acredito que a sindicatura vá além da prestação de serviço. Mas, para isso, volto à questão: é preciso se posicionar. Lembra da premissa: ‘Para que o mal triunfe, basta que os bons não façam nada’? Então, reflita sobre isso. Quando você se posiciona, tem a oportunidade de mostrar a sua luz e os grandes recursos e talentos que há dentro de si. E acredite: temos recursos e talentos incríveis.”   

Vanessa Munis em depoimento concedido a Isabel Ribeiro.   

Matéria publicada na edição 320 março 2026 da Revista Direcional Condomínios

Autor

  • Jornalista Isabel Ribeiro

    Jornalista apaixonada desde sempre por revistas, por gente, pelas boas histórias, e, nos últimos anos, seduzida pelo instigante universo condominial.