“Se há males que vêm para o bem, minha história comprova o ditado. A sindicatura chegou às minhas mãos depois que me acidentei gravemente no antigo emprego. Na fase de convalescença, conectei-me ao lugar em que moro, encontrei falhas graves nas finanças da minha torre, no condomínio Tiradentes, em São Bernardo do Campo, e, por fim, acabei eleito subsíndico. Nesse condomínio, há 26 torres de 15 andares, 3.250 unidades e mais de dez mil habitantes. Hoje, atuo como síndico geral do empreendimento, faço a gestão de três torres e sou síndico profissional em prédios do Grande ABC. Para melhor embasar minha nova carreira, acabo de concluir uma pós-graduação em Direito Condominial.
Sou ‘batateiro’, apelido de quem nasce em São Bernardo. Meu pai era motorista terceirizado, a serviço de prefeituras paulistas. Minha mãe era dona de casa e fornecia marmitas para operários no Batistini, bairro em que fui criado. Sou o caçula de sete irmãos. Meus pais davam duro; mesmo assim, chegamos a passar fome. Lembro de um vizinho japonês que nos doava, por cima do muro, verduras e legumes colhidos de sua horta. Pelo que passei na infância, estou sempre envolvido com ações sociais e estarei pelo resto da vida.
Com 13 anos, tornei-me servente de pedreiro, carregando sacos de cimento de 50 quilos. Na sequência, fui auxiliar de expedição em metalúrgica. Aos 16 anos, porém, surgiu uma vaga na mesma empregadora do meu pai, e fui contratado. Iniciei nas atividades de zeladoria urbana das prefeituras, roçando grama e podando árvores de praças; ao atingir a maioridade, tornei-me motorista. Fiquei quase dez anos na terceirizada. Depois, tive um lava-rápido. Nunca parei de trabalhar nem de estudar.
Em 2006, ingressei em uma metalúrgica de origem alemã e permaneci até 2018. Esse, aliás, foi um período de intensos acontecimentos no âmbito profissional e pessoal. Casei-me com a Vanessa (minha atual parceira de sindicatura), compramos nosso apartamento, tivemos dois filhos, a Luiza e o Rafael, e conquistei minha segunda graduação — sou formado em Administração de Empresas e Logística. No trabalho, mais uma vez comecei como auxiliar de expedição, mas logo evoluí a líder e a supervisor. A empresa tinha um histórico de acidentes diários com operários, mas, em meu primeiro ano de liderança de equipes, foram 365 dias sem ocorrências. Tudo ia bem até que, certo dia, em 2016, fui ajudar a erguer um material (60 quilos de aço) e travei a coluna.
Passei um ano e nove meses em licença médica, parte desse período sem andar ou me locomovendo lentamente, apoiando-me nas paredes de casa. Meu filho era um bebê, e eu só conseguia tê-lo nos braços se estivesse sentado. Enfrentei dores físicas e tristeza, mas não sucumbi. Foquei na reabilitação. Em vez de cirurgia, optei por uma rotina intensa de fisioterapia e tratamentos e busquei intervenção espiritual. Voltei a andar e retomei o trabalho. Soube que havia feito falta, pois a produção da fábrica caíra, mas, em poucos meses, coloquei tudo nos eixos. Eu seria promovido, porém levei uma rasteira de um chefe invejoso e perdi o emprego.
A partir daí, decidi empreender. A sindicatura me pareceu um rumo adequado, pois se alinhava às minhas formações e vivências. Nessa época, eu já estava há um ano como subsíndico no condomínio Tiradentes, em que cada torre possui um subsíndico com autonomia para geri-la. Durante a licença médica, eu havia ficado intrigado ao ler tantas mensagens no grupo de WhatsApp de moradores reclamando do então subsíndico. Como eu tinha mais tempo livre, pedi para analisar as pastas, notas etc. Eram tantas irregularidades! Eu me uni a esses moradores, destituímos o subsíndico e trocamos a administradora. Assumi o posto provisoriamente e estou nele há nove anos. Havia dívidas e, hoje, contamos com 300 mil reais em caixa. Temos manutenções em dia, água individualizada, elevadores modernizados, e a torre já foi pintada duas vezes — tudo sem rateio.
O trabalho que executei na minha torre fez de mim referência para subsíndicos das outras torres. Muitos passaram a me procurar, e eu os ensinei com boa vontade. Fomentei a união dos blocos, o que é importante para o todo. Por isso, quando meu nome foi cogitado para o posto de síndico geral do condomínio, recebi muito apoio deles. Eu não tinha essa ambição, mas havia uma questão por trás. O Tiradentes, que possui orçamento à parte das torres, estava devendo 1 milhão e 200 mil reais ao INSS. Era preciso estancar a sangria. Fui eleito síndico geral em 2025 e, agora em 2026, reeleito sem concorrência.
Em pouco mais de um ano à frente do Tiradentes, estamos honrando o parcelamento da dívida no INSS, elevamos o caixa de 63 mil reais para 300 mil reais e revitalizamos algumas áreas de lazer e operacionais. É um condomínio gigantesco: passam, ao dia, quatro mil veículos pela portaria, circulam caminhões de lixo por suas ruas, há bosque, padaria, lavanderia, feira livre, quadra coberta, pista de skate e academia com instrutores. Mas, no fundo, administrar um condomínio grande, guardadas as proporções, não é diferente de administrar outros condomínios. Assim como nos demais, o desafio é lidar com pessoas. Muitas vezes, elas entendem como de difícil solução um problema que nos trazem, quando, na verdade, é algo tão simples! Mas chegam agitadas ou agressivas; então eu me sento com elas, olho nos olhos, deixo que falem, e aí aponto a solução.
Porém, há vezes em que extrapolam, caluniam, ofendem a honra, e aí não há conversa nem perdão. Há processo. Antes de me tornar síndico geral do Tiradentes, meu antecessor cometeu um ato gravíssimo ao tentar me desestabilizar, pois sabia que eu pretendia concorrer com ele ao cargo. Ele segurou a mão da minha filha, então com 11 anos, impedindo-a de se soltar, chamou-a de feia mais de três vezes e usou termos ofensivos no meio da feira do condomínio. Corta meu coração falar disso. Minha esposa me avisou do ocorrido quando eu estava na quadra com meu filho. Os pais dos outros garotos precisaram me conter durante duas horas para que eu não perdesse a razão e, em vez disso, procurasse a Justiça, que é sempre o melhor caminho.
Fora algumas ervas daninhas, vejo com bons olhos a sindicatura. Basta trabalhar com honestidade, dedicação e transparência. Quanto mais agimos de forma correta, menos dor de cabeça temos. As pessoas perturbam menos, cobram menos, e, ainda que o façam, estamos respaldados por legislação, contratos, recibos, e qualquer cobrança cai por terra.”
Valdir Assis em depoimento concedido a Isabel Ribeiro
Matéria publicada na edição 321 abril 2026 da Revista Direcional Condomínios
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