Mobilidade elétrica: novos desafios à gestão condominial

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Os veículos eletrificados têm presença crescente nos condomínios. Pudera. De acordo com a Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE), o volume de emplacamentos saiu de patamares incipientes, há dez anos, para mais de 223 mil unidades em 2025. Mas esse aumento se deu em ritmo mais veloz do que a definição de regras para a implantação de carregadores veiculares. Entretanto, este ano, dois marcos regulatórios inauguram uma nova fase para o tema: a Lei Estadual nº 18.403/2026 e a atualização da Instrução Técnica nº 41 (IT-41) do Corpo de Bombeiros da Polícia Militar do Estado de São Paulo.    

Dessa forma, a instalação de carregadores passa a exigir decisões técnicas, alinhamento coletivo e visão de longo prazo, com impactos diretos na segurança, na conformidade e na valorização do patrimônio. Um dos principais pontos de atenção está na adequação das garagens. Ganham relevância medidas como a implantação de sistemas adequados de detecção e alarme de incêndio, o posicionamento correto dos equipamentos, sem interferir nas rotas de fuga, além de sinalização, dispositivos de emergência e verificação criteriosa das condições da rede elétrica existente.    

Outro aspecto definido é o direito do condômino de instalar o carregador em sua vaga privativa, desde que o procedimento esteja alinhado a parâmetros técnicos, normas vigentes e diretrizes estabelecidas pelo próprio condomínio. Importante lembrar que o direito individual não pode se sobrepor à segurança coletiva. Quando executadas de forma desordenada, sem avaliação de carga e sem integração a um plano técnico, as instalações podem comprometer o funcionamento de todo o sistema elétrico da edificação.    

A mobilidade elétrica avança de modo consistente. Cabe à gestão propor à coletividade soluções de infraestrutura que evitem improvisações. Para isso, torna-se indispensável adotar uma abordagem planejada, baseada em diagnóstico técnico da infraestrutura existente, definição de diretrizes para expansão e implementação de soluções que permitam o crescimento ordenado da demanda. Esse planejamento envolve a elaboração de laudos das instalações elétricas, a definição de critérios para novas conexões, a adoção de sistemas de gerenciamento de carga e a criação de regras transparentes para uso e cobrança da energia consumida.    

O processo evolutivo precisa se dar de modo seguro e consciente. “Modernizar o condomínio e trazer facilidades, como carregadores veiculares, faz todo sentido. O síndico serve ao condomínio e deve estar atento às suas necessidades. Porém, muitas vezes é preciso acolher a expectativa do condômino e explicar que existe um processo para atender ao que ele deseja e que a entrega pode demandar algum tempo. Nós, síndicos, devemos seguir a normativa e estar cientes de que nem sempre a solução mais rápida é a mais eficiente”, afirma o síndico profissional Bruno Sevieri.    

Com empreendimentos de alto e médio padrão em sua carteira de clientes, em diferentes bairros da capital paulista, Bruno relata que um dos principais desafios do momento está nos prédios novos entregues com apenas um ponto de recarga elétrica. “Um único ponto, hoje, é insuficiente para determinados condomínios. Há um gargalo de abastecimento.” E tem, ainda, o desafio de replicar os pontos de carregamento em uma estrutura física que não foi concebida para atender às atuais orientações do Corpo de Bombeiros. Em implantações, Bruno afirma que sempre contrata uma empresa especializada para verificar se o ponto de recarga entregue pela construtora foi corretamente dimensionado. Outro passo é contratar uma empresa de gestão de consumo, garantindo que a despesa seja atribuída a quem efetivamente utiliza o serviço.    

Também as construções antigas são desafiadoras. “Assumi a gestão de edifícios que possuem instalações de recarga feitas algum tempo atrás, quando os veículos elétricos estavam despontando no mercado. O problema é na hora de explicar para os condôminos que tudo isso precisa ser refeito”, comenta Bruno.    

O síndico conta que muitas dessas instalações estão atreladas ao quadro de força da própria unidade. “No passado foi dimensionada uma carga para as unidades, mas o consumo energético das famílias não é mais como era há 10, 20 anos… Temos fritadeiras elétricas, fogão por indução, além de aparelhos de ar-condicionado e aqueles de uso contínuo, como celulares, tablets, entre outros. Como estará a capacidade total do quadro elétrico do apartamento para alimentar o carregador veicular?”, questiona. “O recomendável é fazer o dimensionamento de carga junto ao quadro geral do prédio, pois, dessa forma, é possível colocar um balanceador para evitar sobrecarga no sistema”.    

Há cerca de seis meses, a síndica profissional e advogada Andrezza Mandarano assumiu a gestão de um empreendimento entregue em 2023, no Parque da Mooca, zona leste da capital paulista. Nos últimos tempos, tem se dedicado a entender como foram instaladas quatro estações de recarga no condomínio de classe média alta — três em vagas privativas e a quarta na vaga desocupada do zelador, equipada com carregador wallbox. “Precisamos atualizar todas essas instalações diante das novas regulamentações. Não localizei nenhuma documentação, nem ART ou qualquer outro registro referente ao que já foi feito, tanto nas vagas particulares quanto na do próprio condomínio. Teremos de elaborar um laudo de estudo de carga e, em seguida, proceder com as adequações necessárias”, relata.    

Em outro residencial da mesma região, ao identificar o interesse dos moradores pela mobilidade elétrica, Andrezza contratou uma empresa especializada para realizar o estudo de carga. “Neste condomínio, ainda não há veículos elétricos, mas já existe sinalização de interesse por parte dos moradores. Como gestores, precisamos nos atualizar constantemente e estar atentos às mudanças da sociedade, como a adesão à eletromobilidade, que também se refletem nos condomínios”.    

Em síntese, seja qual for o perfil do condomínio – novo, antigo, com ou sem pontos de abastecimento instalados –, a regra é a mesma: contratar, antes de mais nada, um estudo de cargas, procurar uma empresa qualificada que oriente sobre a solução adequada para aquele condomínio e atender à nova demanda dentro de critérios técnicos, de modo a resguardar o condomínio e o gestor.      


 

Marcio Tabet

“A terceirização da gestão de estacionamentos constitui uma solução estratégica e eficaz para condomínios que buscam maior controle de sua operação. É uma solução estratégica que, se bem estruturada, pode mudar o patamar do condomínio.” 

(Marcio Tabet, sócio-fundador, Rod Estacionamentos)


Walter Gonçalves Junior

“Estatisticamente, veículos a combustão têm 60 vezes mais risco de incêndio do que os elétricos. Portanto, o condomínio não deve se ater a mitos sobre os modelos elétricos, mas à qualidade da infraestrutura. O maior risco está na má qualidade da instalação elétrica e no descumprimento das normas de segurança.”   

(Walter Gonçalves Junior, diretor técnico comercial, Kapplan Energy)


“Dê preferência a uma empresa de engenharia elétrica com expertise no mercado para que possa avaliar a instalação existente, definir a arquitetura técnica e implantar uma infraestrutura para veículos elétricos com segurança, inteligência e visão de longo prazo.”

“Recarga veicular não deve ser tratada na   base do improviso, pois envolve engenharia aplicada, gestão de carga, conformidade com a IT-41 e responsabilidade técnica do projeto à operação. É preciso contratar uma empresa que entrega soluções seguras, escaláveis e compatíveis com a realidade elétrica de cada edifício.” 

(Douglas Ueno, engenheiro eletricista, HF Engenharia) 


Matéria publicada na edição 322 maio 2026 da Revista Direcional Condomínios

Autor

  • Jornalista Isabel Ribeiro

    Jornalista apaixonada desde sempre por revistas, por gente, pelas boas histórias, e, nos últimos anos, seduzida pelo instigante universo condominial.