O condomínio é o primeiro lugar onde aprendemos — ou desaprendemos — cidadania

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Existe uma frase que sempre me faz refletir: é muito fácil exigir um país melhor quando não conseguimos ser um bom vizinho. Ao longo da minha atuação como advogada e síndica profissional, percebi que os condomínios são muito mais do que conjuntos de apartamentos. Eles funcionam como pequenos retratos da sociedade. Entre portarias, elevadores, garagens e áreas comuns, convivem pessoas de diferentes idades, profissões, crenças, culturas e histórias de vida. É justamente nesse espaço compartilhado que a cidadania deixa de ser um conceito aprendido nos livros e passa a ser colocada à prova todos os dias.

Muitos acreditam que cidadania se resume ao exercício do voto, ao cumprimento das leis ou ao pagamento de impostos. Esses são, sem dúvida, aspectos importantes. Mas a verdadeira cidadania se revela nas pequenas escolhas do cotidiano, principalmente quando ninguém está olhando.

É no condomínio que descobrimos se respeitamos regras apenas por medo da punição ou porque compreendemos sua importância para a vida em coletividade.

É no condomínio que percebemos quem estaciona ocupando parte da vaga do vizinho porque acredita que “é só por alguns minutos”. Quem deixa objetos nos corredores ignorando as normas de segurança porque “nunca aconteceu nada”. Quem joga bitucas de cigarro ou qualquer outro objeto pela janela sem imaginar — ou sem se importar — com os riscos que pode causar. Quem coloca o lixo fora do horário estabelecido porque considera que a organização coletiva deve se adaptar à sua conveniência.

São atitudes aparentemente pequenas. Mas é justamente assim que a falta de cidadania se manifesta: por meio de comportamentos repetidos, naturalizados e frequentemente justificados por frases como “todo mundo faz”, “não vai dar problema” ou “é só dessa vez”.

O mesmo acontece com o silêncio. Quantas pessoas presenciam uma irregularidade, um ato de vandalismo ou um desperdício de recursos e preferem não se envolver? Quantos observam um equipamento danificado, um vazamento ou uma situação de risco e deixam para que “alguém resolva”? A cidadania também se mede pela disposição de cuidar daquilo que pertence a todos.

Outro aspecto que merece reflexão é a forma como tratamos os profissionais que trabalham no condomínio. Porteiros, zeladores, auxiliares de limpeza, jardineiros, vigias e prestadores de serviços costumam ser as primeiras pessoas com quem muitos moradores têm contato diariamente. Ainda assim, não são raras as situações de desrespeito, arrogância, ordens inadequadas ou exigências que extrapolam suas atribuições.

A maneira como tratamos aqueles que nos prestam um serviço revela muito mais sobre nosso caráter do que qualquer discurso sobre educação ou respeito.

Também é no condomínio que aprendemos o significado dos limites. O morador que promove festas em volume incompatível com a convivência, que permite que seus filhos utilizem áreas comuns sem qualquer supervisão, que utiliza vagas alheias, que alimenta conflitos em grupos de mensagens ou que desrespeita deliberadamente o regulamento interno não está apenas descumprindo normas condominiais. Está demonstrando uma dificuldade muito maior: compreender que viver em sociedade exige reconhecer que os direitos individuais encontram limites nos direitos dos outros.

Há quem imagine que esses comportamentos são problemas exclusivamente condominiais. Não são.

A pessoa que ignora a faixa de pedestres provavelmente é a mesma que estaciona em local proibido dentro do condomínio. Quem joga lixo pela janela do carro dificilmente terá preocupação em respeitar os horários da coleta seletiva. Quem tenta obter vantagens em qualquer situação tende a reproduzir esse comportamento também nas assembleias, nas relações de vizinhança e nas decisões que envolvem interesses coletivos.

Por isso, costumo dizer que o condomínio é um laboratório permanente de cidadania.

É ali que exercitamos a tolerância diante das diferenças. Aprendemos que nem sempre nossa vontade prevalecerá. Descobrimos que regras não existem para limitar liberdades, mas para permitir que centenas de pessoas consigam conviver em harmonia. Entendemos que patrimônio coletivo merece o mesmo cuidado que dedicamos ao patrimônio particular. E percebemos que respeito não é uma gentileza opcional, mas uma condição indispensável para a vida em comunidade.

Como advogada, frequentemente observo conflitos que chegam ao Poder Judiciário e que jamais deveriam ter ultrapassado a porta do condomínio. Discussões que começaram por uma vaga de garagem, um ruído, uma infiltração ou uma simples divergência de convivência acabam se transformando em processos longos, desgastantes e custosos. Em muitos casos, o problema jurídico é apenas a consequência de um problema muito maior: a incapacidade de dialogar, respeitar e reconhecer o outro como integrante da mesma comunidade.

Isso nos leva a uma reflexão inevitável. Costumamos apontar os problemas do país com enorme facilidade. Criticamos a corrupção, a falta de educação, o desrespeito às leis, a violência e a ausência de espírito coletivo. Mas raramente fazemos um exercício de autocrítica sobre como contribuímos, diariamente, para construir ou enfraquecer a sociedade que desejamos.

A cidadania não começa nas grandes decisões políticas. Ela começa quando devolvemos o carrinho de compras ao lugar correto, respeitamos uma fila, reduzimos o volume da música, recolhemos as fezes do nosso animal de estimação, preservamos o patrimônio comum, tratamos todos com dignidade e compreendemos que viver em coletividade exige responsabilidade.

O condomínio é, talvez, o primeiro espaço em que percebemos que liberdade não significa fazer tudo o que desejamos. Significa exercer nossos direitos sem comprometer os direitos daqueles que vivem ao nosso lado.

Nenhuma convenção condominial será capaz de substituir o bom senso. Nenhum regulamento interno conseguirá fiscalizar todas as atitudes. Nenhuma multa transformará alguém em um bom cidadão se essa mudança não partir de uma convicção pessoal.

Síndicos podem administrar recursos, organizar equipes, implantar tecnologias e garantir o cumprimento das normas. Advogados podem interpretar a legislação e buscar soluções para os conflitos. Assembleias podem deliberar sobre obras, investimentos e melhorias. Tudo isso é importante. Mas existe algo que nenhum cargo, nenhuma lei e nenhum regulamento conseguem impor: a consciência de que fazemos parte de uma coletividade.

Talvez seja exatamente por isso que os condomínios representem um dos maiores desafios da convivência moderna. Eles reúnem pessoas completamente diferentes em um espaço onde o respeito não é uma escolha conveniente, mas uma necessidade permanente.

Antes de reclamar da falta de educação no trânsito, da corrupção, da violência, da intolerância ou da ausência de cidadania no país, vale a pena fazer uma pergunta simples, mas profundamente transformadora: como eu me comporto dentro do condomínio onde moro?

Porque a sociedade que tanto desejamos construir começa muito antes das grandes mudanças. Ela começa na porta do nosso apartamento. E a cidadania, antes de ser um discurso, é uma prática diária.

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