“Quando penso em coisas positivas do mercado condominial, elejo os congressos. Amo; aprendo demais. Sou síndico morador desde 2011, mas nunca dispunha de tempo para participar. Só em 2022, depois de abraçar a sindicatura profissional, pude vivenciar esses momentos. Agora, sabe o que é engraçado? Eu tinha uma empresa de eventos. Por mais de 20 anos, trabalhei com estrutura multimídia para grandes congressos pelo país. Então, de organizador, virei frequentador. Passei para o outro lado. No início, eu ficava na plateia murmurando dicas técnicas de sonorização. Como se alguém, além do síndico ao lado, conseguisse me ouvir (risos)!
Outro dia, a caminho de um congresso condominial na Avenida Paulista, ouvi do motorista de aplicativo: ‘Se não der certo isso aqui, vou virar síndico profissional. Está dando a maior grana.’ Expliquei que, primeiro, teria de estudar muito. Eu mesmo fiz curso de sindicatura profissional no Secovi oito anos atrás e não parei mais de estudar. Quanto à renda, é consequência, não o fator preponderante. Quando fiz a transição de carreira, desci de patamar financeiro, mas sabia que seria temporariamente, pois, se trabalhasse bem, poderia multiplicar os ganhos obtidos nos primeiros condomínios pelos outros que viriam. Minha esposa, que é bióloga e pesquisadora clínica em uma multinacional, me tranquilizou, propondo-se a arcar com as despesas do lar enquanto fosse necessário.
Eu quis ser síndico pela qualidade do tempo – sim, eu consigo essa proeza (risos)! O meu segredo é atender endereços próximos de onde moro, na região da Saúde. Na época dos eventos, viajava muito, mal curtia a infância dos meus filhos. Uma vez, a minha filha, então com dois anos, não me reconheceu quando cheguei de viagem. Doeu. Outra coisa que passou a me incomodar foi a dinâmica do trabalho. Você faz tudo para que palestrantes e plateia tenham a melhor experiência. Ao final, vão embora contentes. E quem desmonta toda a parafernália naquele espaço vazio? Isso foi me dando uma tristeza. Já em condomínio, você trabalha muito, mas o resultado está lá. É a fachada pintada, o caixa recobrando fôlego…
Não pensava que um dia me conectaria tanto ao universo condominial. Nasci e cresci na Saúde, quando havia poucos prédios. Fui criado em uma casa que meu pai pagou com esforço. Ele era protético, trabalhava no laboratório de dia e atendia em casa à noite. Cansei de ver gente sem dente, de boca aberta na sala. Eu era pequeno e achava aquilo muito engraçado. Comecei a trabalhar aos 14 anos como office boy; adivinhe onde? Em uma administradora de condomínios na região da República. Os office boys entregavam boletos nos prédios e também levavam o pagamento e o vale-transporte dos funcionários. O conteúdo ia dentro das mochilas top da época, para passar a impressão de que éramos estudantes e despistar ladrões. Eu era recebido com alegria nos prédios. Creio que, de alguma forma, isso contribuiu para o zelo que tenho com as minhas equipes nos condomínios.
Aos 18 anos, fui para o Exército. Eu havia feito um curso de fotografia, pois, se fosse convocado para o serviço militar, poderia ficar em um departamento melhor no batalhão. Acabei aceito como fotógrafo pericial. Fotografava intercorrências e acidentes com militares. Nunca esqueço da primeira vez em que entrei no IML. A costura feita depois da autópsia é uma imagem que marca muito. Eu criei uma técnica para não travar. Fingia que a pessoa ainda estava viva. Antes de começar, eu conversava com ela. ‘Ô, tenente, tudo bem? Dá licença. Desculpa incomodar, mas preciso tirar algumas fotos.’ Levantava o lençol, localizava o ferimento, colocava a seta de identificação e fazia as fotografias. Era minha maneira de manter o respeito e também de controlar o medo.
Após a fase militar, trabalhei na corretora de seguros Vila Velha. Depois, entrei em uma empresa pequena que montava e vendia computadores, pertinho de casa, ganhando pouco. Mas essa empresa viria a se projetar no aluguel de computadores, caixas de som, televisores de plasma etc. para o mercado de eventos. Evoluí junto com ela e me tornei sócio no braço multimídia. Nesse período, com minha esposa à espera do nosso caçula, adquirimos nosso segundo apartamento, mais espaçoso, em um condomínio em implantação. Logo entrei para o conselho, depois virei subsíndico. Acompanhei o síndico profissional por um ano, sem ver evolução. Assim que ele quis sair, me candidatei ao posto. Na prática, quem já vinha cuidando do condomínio éramos apenas eu e o zelador. O mandato é anual, e estou no décimo quarto, com ampla aprovação.
Minha primeira providência foi acionar a construtora judicialmente por graves falhas construtivas. Em seguida, canalizei esforços não para economizar dinheiro, mas para empregá-lo bem. Temos, por exemplo, um custo alto com jardinagem e limpeza, mas, em contrapartida, temos jardins aprazíveis e até mesmo as áreas técnicas são limpíssimas. O maior ganho da minha gestão foi transformar o ambiente. Implantamos uma área de convivência com caramanchão de orquídeas e outras espécies, onde temos bancos e um lago de peixes. Fez tanto sucesso que repliquei a ideia em outro condomínio. Criamos horta, pet place e trouxemos minimercado. O serviço do síndico é bonificar e valorizar o imóvel. Mas, antes de trazer novidades, ele deve se perguntar se elas irão agregar algo à coletividade. Hoje, o condomínio é mais acolhedor. As áreas comuns são agradáveis. As pessoas convivem bem. Claro que já tivemos problemas. Houve moradores que, sinceramente, era melhor terem ido embora. E foram!
A minha atuação nesse edifício serviu de referência para os condomínios que assumi como síndico profissional. O primeiro foi indicado pela administradora. Os outros também partiram de indicações e vieram com intervalos de seis meses a um ano. O síndico precisa desse tempo para conhecer um condomínio, não podendo assumir outro prédio na sequência. Prefi ro preservar os condomínios que tenho a dar passos largos por ganância. Esse método tem funcionado. As pessoas não querem que eu vá embora desses condomínios, um sinal de reconhecimento. Eu não fiquei rico, mas estou feliz na sindicatura. Brinco que, se eu ganhar na Mega-Sena, fico quieto e continuo a vida normal, porque gosto da vida que tenho. Gosto de conversar com moradores. Gosto até mesmo da adrenalina da resolução daqueles problemas técnicos inesperados. Se eu tivesse de abrir mão de tudo isso, sentiria falta.”
Eduardo Boscolo em depoimento concedido a Isabel Ribeiro
Matéria publicada na Edição 325 – agosto/2026 da Revista Direcional Condomínios
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