Gentileza no condomínio: pequenos gestos que transformam a convivência

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Da promoção de encontros entre moradores à valorização dos funcionários, pequenas iniciativas da gestão podem fortalecer os vínculos e melhorar a convivência no condomínio   

Em 13 de novembro, comemora- se o Dia Mundial da Gentileza, criado com o objetivo de inspirar a empatia, o respeito e a solidariedade. A data convida à reflexão sobre como pequenos gestos, a exemplo de um abraço, um sorriso ou uma palavra de incentivo, podem transformar o dia de alguém. Na vida em condomínio, essa disposição também se manifesta em atitudes como devolver o carrinho de compras logo após o uso, ajudar a carregar sacolas ou cumprimentar moradores e funcionários. Essas iniciativas contribuem para tornar as relações mais harmoniosas. A gestão condominial tem papel significativo nesse contexto, ao promover uma cultura orientada por princípios de respeito e cordialidade.   

Depois de alcançar posições de destaque na hotelaria, setor que tem como pilar estratégico a gentileza, Lourival Teixeira trouxe para a sindicatura profissional a convicção de que amabilidade e cuidado têm tudo a ver com uma liderança bem-sucedida. Não por acaso, aplica esse aprendizado hoteleiro há mais de uma década à frente do condomínio Home Stay Paulistano, empreendimento conceitual que combina o conforto dos serviços de hotel com o aconchego de um lar, com 250 unidades, na Bela Vista, região central de São Paulo.   

Ele observa, porém, que ser um líder cordial não significa abrir mão das regras e responsabilidades do cargo. “A função de síndico exige equilíbrio entre gentileza e firmeza. Você pode tratar a todos com cordialidade sem deixar de cumprir a convenção e o regimento. Dá para ser gentil sem ser permissivo e exercer autoridade sem ser autoritário”. O síndico reforça que incentivar uma comunicação respeitosa, clara e acolhedora entre moradores, funcionários e prestadores de serviço, promover iniciativas que estimulem a empatia e o respeito às diferenças e cuidar para que os espaços comuns sejam acessíveis, limpos, seguros e agradáveis para todos são medidas em prol de um ambiente mais gentil.   

Lourival organiza, com esmero, eventos como degustações de vinho. “Quando os moradores se conhecem melhor, ocorre redução de conflitos. Sem contar que os eventos trazem bem-estar às pessoas. Até as mais idosas participam, o que dá muita alegria”, constata. E, se gentileza gera gentileza, ele é a prova viva do ditado. “Tive câncer, precisei me afastar e, quando retornei, muitos condôminos demonstraram preocupação, perguntaram sobre minha saúde – até hoje perguntam. Considero esse gesto uma demonstração genuína de carinho e humanidade. Vejo essa aproximação como resultado de uma administração guiada pelo cuidado e respeito às pessoas”, avalia.   

Interação social    

Gestor de uma empresa de sindicatura profissional, Gustavo Oliveira busca ressignificar condomínios, transformando-os em verdadeiras comunidades. “Estudos demonstraram que as pessoas mais felizes têm amigos próximos ou familiares que lhes dão apoio. Nesse sentido, compaixão, gratidão, interação social e cooperação estão programados para ser intrinsecamente gratificantes para os humanos. Sem isso, não seríamos criaturas sociais. A cooperação mútua pode gerar uma quantidade significativa de dopamina, neurotransmissor que contribui para sensações de prazer”, explica. “Na maneira como conduzimos a gestão condominial, podemos levar um pouco mais de paz, de harmonia, de felicidade às comunidades”, acredita.   

Especialmente no caso de síndicos profissionais, Gustavo pontua o quanto é importante, além de competência técnica, terem capacidade de se integrar à comunidade. Afinal, no início da gestão, esse profissional ainda é um desconhecido para boa parte dos moradores. Organizar encontros que vão além das assembleias é recomendável. “Uma das coisas que faço é promover um gostoso café da manhã, no qual recebo os moradores com cordialidade e consigo ouvir suas demandas com uma disponibilidade que nem sempre temos nas assembleias”, relata. “Oferecer esse café é um modo de estreitar laços com a comunidade, mas também traz o morador para participar dela. São passos em direção a um condomínio mais gentil”, defende.   

Quando percebe que existe interesse, Gustavo procura promover campanhas de arrecadação de agasalhos, alimentos e brinquedos nos condomínios, engajando moradores em torno de um propósito nobre. Em algumas ocasiões, síndicos de sua equipe conseguiram arrecadar recursos com empresas parceiras para alegrar as crianças de condomínios com menor poder aquisitivo, como ocorreu em um empreendimento em Taboão da Serra. “Com o valor arrecadado, foram comprados brinquedos e organizada a visita de um Papai Noel. Foi muito bonito.” Também em condomínios de padrão mais elevado, ele contabiliza boas experiências em eventos para os moradores e incentiva a formação de comissões. Em um deles, em Santana, as festividades natalinas são especiais. “O Papai Noel é ‘padrão shopping center’ e fazem até competição para eleger a torre mais bem decorada”, conta.   

Dentro do conceito de condomínio mais gentil, ações sustentáveis não podem ser ignoradas. Mas, às vezes, precisam daquele empurrãozinho da gestão. “Em um prédio na Barra Funda, foi bem complicado inserirmos a cultura da coleta seletiva de lixo. Havia muita resistência ao descarte correto de resíduos, então convocamos as crianças”, conta Gustavo. Aos pequenos, coube juntar tampinhas de garrafas PET. “Criamos uma campanha na qual os três primeiros colocados receberiam vouchers de brinquedos.” A ação inverteu a lógica: em vez de as crianças imitarem os adultos na reciclagem, foram elas que os estimularam a participar. A partir daí, a coleta seletiva decolou.   

A gentileza na dinâmica condominial também se estende aos trabalhadores. Gustavo salienta que é preciso reconhecer os colaboradores, respeitar suas funções, oferecer condições dignas de trabalho e estimular relações pautadas pela empatia e gratidão. “O profissional motivado contribui para a harmonia do condomínio”, pontua. Com vivência na sindicatura desde 2017, ele observa: “Os trabalhadores ficam contentes quando colocamos suas fotos no mural por ocasião do aniversário ou do ingresso no condomínio. O mesmo ocorre quando um morador acena para o porteiro na guarita ou envia um bolo”. Gustavo arremata: “São simples gestos de gentileza, mas que colaboram para formar comunidades mais acolhedoras”.        

Gestão cordial e respeitosa   

Gentileza no trato faz parte da cartilha do bom gestor e tem até mesmo o poder de desarmar a agressividade do outro. Veja as considerações da psicóloga e advogada Carmen Mirio sobre o tema.   

– Antes de oferecer gentileza, ela precisa morar na gente, por meio de gestos como se arrumar com carinho, se alimentar melhor, cuidar do corpo, escolher o que assiste e lê. Ser gentil com você é cuidar da cama que te acolhe, do quarto que te abriga, da casa que você habita, do carro que te leva, do relacionamento que te sustenta. Quando a gente negligencia a delicadeza, como podemos ser gentis com o outro? Portanto, pela manhã, olhe no espelho e sorria para a pessoa mais importante da sua vida: VOCÊ. Aprenda a se desculpar, se perdoar e ter paciência consigo mesmo.   

– Pratique escuta ativa ao ser procurado pelo morador. Ouça com atenção e empatia o que o outro tem a dizer, observe os sinais que o corpo dá. Às vezes, ele pode estar preocupado com outra coisa e despejar em você suas frustrações. Mas, quando você fala “eu estou te ouvindo”, o outro desarma. O mesmo vale para quem chega em tom de voz elevado e ataca o síndico por ter dificuldade em lidar com uma figura de autoridade. Quando nota que o interlocutor mantém a voz inalterada, baixa a bola.   

– Pergunte-se: eu respeito o outro para ser respeitado? Porque, se eu não tiver um mínimo de respeito pelo próximo, como é que eu quero ser respeitado? Lidere pelo exemplo. Seja educado. Nunca se perde por ser educado. Mas não confunda gentileza com permissividade.   

– Se precisar tomar uma decisão que contrarie o morador, mantenha a cordialidade. Diga: “Olha, eu entendo o seu problema, mas, se eu beneficiar você, posso prejudicar o outro, porque ele também tem o mesmo direito que você”. A comunicação clara, de modo didático, pode mudar a compreensão do morador sobre a postura do gestor, ainda que ele tenha escutado um não como resposta.  


Suprema gentileza 

Fundadora da ONG Corrente do Bem – a vida como ela é…, a terapeuta social Rose Lopes resgata pessoas em situação de rua com dependência química, que são encaminhadas para tratamento terapêutico em sítios da Missão Belém. O voluntariado na obra religiosa católica deu novo sentido à vida de Rose, que perdeu o único irmão em um acidente de carro e, dois anos depois, os pais, em outra tragédia. Há 16 anos, sempre aos domingos, seu sorriso sincero abre caminhos para se aproximar dos desvalidos nas ruas centrais de São Paulo, levando alimento e esperança. “Levamos 300 marmitas, a mesma quantidade de pães e fatias de bolo, e 25 fardos de água. Mas, ultimamente, tem sido insuficiente. O número de pessoas altamente vulneráveis cresceu muito”, relata. Ela explica que, por isso, o projeto necessita de doações. Roupas, água, alimentos e calçados são bem-vindos, assim como ração para os cães das pessoas assistidas. Os condomínios interessados em contribuir podem entrar em contato pelo Instagram @correntedobemavidacomoelae  


Lourival Teixeira, Gustavo Oliveira, Carmen Mirio e Rose Lopes

Matéria publicada na Edição 328 – nov-dez/2026 da Revista Direcional Condomínios

Autor

  • Jornalista Isabel Ribeiro

    Jornalista apaixonada desde sempre por revistas, por gente, pelas boas histórias, e, nos últimos anos, seduzida pelo instigante universo condominial.