A Associação Brasileira de Conscientização para os Perigos da Eletricidade (Abracopel) publicou recentemente os dados de acidentes com a eletricidade que ocorreram no ano de 2024. Esses dados fazem parte do Anuário Abracopel de Acidentes de Origem Elétrica, o qual é publicado desde 2007 e traz uma série histórica desses acidentes desde 2013, ou seja, há 12 anos. Pois bem, nesses dados os números de acidentes são alarmantes não só pelos números propriamente ditos, que trazem mais de 2,3 mil acidentes dessa natureza no Brasil em 2024, ou seja, uma média de mais de seis acidentes por dia, sendo que nesses acidentes ocorreram 840 mortes, mais de duas por dia, mas também pela forma como eles se deram. Por exemplo, um acidente ocorrido no mês passado em um condomínio paulistano, onde uma garota de 12 anos entrou na casa de máquinas da piscina para brincar de se esconder e foi eletrocutada ao tocar em partes energizadas, ou mesmo o caso recente do assistente de um trio elétrico em Goiânia, eletrocutado ao desviar a fiação para passagem do trio.
Estou ligado à Abracopel desde a sua fundação, e tenho acompanhado a apuração dos dados, que se dá principalmente através das notícias publicadas nos meios digitais. Posso afirmar que a maioria dos acidentes ocorre por “desconhecimento” dos riscos que a eletricidade oferece, e em alguns casos, por negligência.
Por esse motivo decidi, em conjunto com a revista Direcional Condomínios, que vem me dando oportunidade de apresentar os riscos e as maneiras de evitar tais acidentes, escrever esse artigo e trazer as formas como acontecem e os meios para reduzir ou eliminar riscos. Vamos lá?
A primeira informação que temos que ter é que qualquer choque elétrico acima de 12 volts pode matar. Como assim? Um estudo internacional publicado em forma de norma técnica1 apresenta os valores de 12 volts como limite de segurança para ambientes com imersão em líquidos, principalmente água, como banheiras e piscinas, entre outros. Para ambientes com chuveiros, ou áreas úmidas, como banheiro, área externa (molhada com água da chuva ou limpeza), área de serviços, cozinhas e afins, o valor sobe um pouco. Passa para 24 volts. E se estivermos em ambientes secos, o valor mínimo de segurança é 50 volts. Então vamos fazer uma avaliação. As tomadas no Brasil têm tensões de 110V, 115V, 127V ou 220V, portanto a que tem menos tensão, tem tensão duas vezes maior do que a mínima possível, então qualquer choque em tomada pode ser fatal. Nesse caso a solução é não tocar em partes energizadas, protegendo- as. Isso é feito com aquela manutenção na tomada que está quebrada, e no cuidado com o uso de benjamins, TE e extensões, principalmente aqui, que pode haver isolamento dos fios rompidos e aí está estabelecido o risco.
O choque elétrico foi responsável por 759 mortes no ano passado, 248 delas em ambientes residenciais, ou seja, em locais onde deveríamos estar seguros, e o pior é que os vilões são eletrodomésticos, principalmente as máquinas de lavar, secadores de cabelo e chapinhas ou babyliss. Um outro vilão dentro de casa é o conjunto celular e carregador, que pode causar choques elétricos, ou mesmo iniciar um incêndio. Outro risco, que já citei, são as extensões. Aquelas com fio duplo, fino e solto no chão são terríveis para perder o isolamento e deixar parte do fio pronto para alguém pisar, ou ainda aquela extensão que passa pela janela para ligar algum equipamento, ou enroscado na grade, que normalmente é metálica, em condição energizada e com isso qualquer um que tocar é choque elétrico na certa. Uma revisão de instalação é imprescindível e a instalação de dispositivos de proteção como o IDR e disjuntores coordenados com os fios vai garantir que os circuitos sejam desligados na possibilidade de choque ou sobrecarga. Em ambientes comuns dos condomínios, os espaços destinados à eletricidade, como casa de máquinas, subestações, centro de medição de energia e quadros, precisam ficar trancados e somente o responsável pela manutenção deve ter acesso, desde que ele seja um profissional capacitado e autorizado. No caso da garota na casa de bombas, mencionado no início desse texto, não era para ela ter encontrado livre acesso.
E os incêndios? Esses representaram mais de 40% do total dos acidentes de origem elétrica em 2024 e foram responsáveis por 50 mortes. Essas mortes ocorreram com pessoas que não conseguiram sair e na grande maioria, idosos e crianças pequenas. O incêndio de origem elétrica é causado pela sobrecarga nos circuitos elétricos, que é o uso de benjamins, TE ou extensões sem critério, ou seja, colocando várias cargas na mesma tomada. Outra prática é o uso de adaptadores, aquele que transforma a tomada grossa na tomada fina e permite que uma fritadeira elétrica, um micro-ondas, um secador de cabelo com potências de 1500 watts ou mais, possam ser ligados em uma tomada que não foi devidamente dimensionada para tal. O resultado disso é um aquecimento que pode derreter o isolamento dos fios causando um curto-circuito, aumentando a temperatura, que pode iniciar um incêndio, e até se tornar de grandes proporções.
Observem que as condições que expressei podem acontecer dentro da sua casa/apartamento ou na área comum dos condomínios, portanto, é dever de todos zelar pela instalação elétrica segura.
Dicas:
- Sempre contrate profissionais capacitados e atualizados;
- Locais de energia devem ser trancados com chave e somente a pessoa autorizada e com capacitação em eletricidade pode adentrar;
- Siga sempre as normas técnicas da ABNT; no caso das instalações elétricas de baixa tensão, a ABNT NBR 5410;
- Use sempre produtos certificados, desconfie de produtos baratos demais;
- Faça sempre projetos com profissionais habilitados para qualquer ampliação ou modificação da instalação elétrica. O projeto sempre lhe trará a melhor, mais eficiente e mais econômica forma;
- Faça revisão a cada cinco anos de uma instalação elétrica com profissionais qualificados, e baseada nas normas.
Matéria publicada na edição 310 abril 2025 da Revista Direcional Condomínios
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