Adriana Araújo: da paixão pelos números ao prazer de solucionar problemas nos condomínios

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Contadora e auditora de formação, Adriana Araújo coloca a paixão por números e pessoas a serviço da sindicatura   

“Um dia desses, meu filho, um jovem adulto, me perguntou: ‘Mãe, contabilidade é uma ciência que interpreta fatos com números. Por que você quis ser contadora? Não seria melhor ter feito humanas? Você lida tão bem com gente’. Ele disse isso porque sempre me pega ao celular com moradores dos meus prédios. Eles me ligam, eu converso. Gosto de escutá-los, afinal, há tantos problemas em condomínios, e conseguir solucionar um deles é tão gostoso! Parece meio louco até, mas eu gosto disso. Porém, também amo a exatidão numérica para resolver um quebra-cabeça financeiro. Essa combinação de números e pessoas acabou sendo perfeita para a sindicatura.   

Sou filha de comerciantes da Freguesia do Ó. Meus pais tinham uma avícola e, aos 15 anos, comecei a ajudá-los aos domingos, quando vendiam cerca de 300 frangos assados. O caixa era comigo. Eu adorava porque, no final do dia, na conferência, o caixa batia direitinho. Depois, meus pais tiveram comércio de roupas. Tenho mais quatro irmãos, e nós todos os ajudamos no trabalho em algum momento de nossas vidas. Cresci em um lar cercado de amor e proteção, um privilégio!   

Com 17 para 18 anos, comecei a trabalhar em uma corretora de câmbio. Na sequência, fui para a Itaoca, administradora de bens e condomínios que foi incorporada pela Coelho da Fonseca. Ao todo, trabalhei 25 anos na área financeira de administradoras, passando por empresas tradicionais, como a Mario Dal Maso. Para crescer, depois de me formar em contabilidade, fiz vários cursos do mercado de imóveis e condomínios. Enquanto contadora e auditora, trabalhei muito. Fiz muita conciliação bancária de condomínio ‘na unha’, pois a tecnologia era limitada.   

Como auditora, lembro, em particular, de uma assembleia em que ‘cadeiras voaram’. Não fiquei tão surpresa, pois fui para o condomínio sabendo que seria discutida a constatação de um desvio de dinheiro. Eu discordo absolutamente do estigma de desonestidade que persegue os síndicos. Tem muita gente boa e séria à frente dos condomínios. Mas, na minha época de administradoras, também me deparei com síndicos que agiam de má-fé. Vi uma síndica querendo levar vantagem até com vaso sanitário! ‘Inclui um para o meu apartamento’, disse ela, ao orçarmos as peças dos banheiros da área comum.   

Vejo a auditoria como uma ferramenta de apoio indispensável para qualquer gestor. Recomendo a todos os colegas síndicos, ainda mais para quem administra condomínios mistos, onde há unidades de uso residencial, de uso não residencial e fachadas ativas, pois, nesses empreendimentos, há particularidades contábeis que podem confundir. O auditor acompanha a movimentação fiscal, detecta possíveis falhas e vai junto à assembleia para esclarecer eventuais dúvidas na prestação de contas.   

Troquei a Freguesia do Ó pela região da Saúde quando conheci a pessoa que viria a ser o pai do meu filho. Fomos morar em uma casa com quintal. Depois, em 2016, compramos um imóvel em um condomínio nos arredores. A antiga síndica orgânica adoeceu e eu assumi provisoriamente o posto, por sugestão de vizinhos. Eu tinha meu emprego, criança pequena e quase nenhum tempo livre. Por outro lado, o prédio de 92 unidades estava muito largado, então me comprometi a cuidar dele por um ano.   

Durante esse período, fiz reforma elétrica, intervenções na quadra e pintura nos halls. Implantei biometria digital e resgatei protocolos de segurança, pois, na gestão passada, havia ocorrido um roubo em um dos apartamentos. E troquei a administradora que havia apresentado pastas impossíveis de entender até mesmo para uma contadora.   

A alteração mais impactante para a coletividade foi a substituição do zelador orgânico, com anos de casa. Esse funcionário não agregava ao condomínio, pelo contrário, e saía caro mantê-lo. Ao saber da possibilidade de demissão, valeu-se do estigma da nossa categoria: ‘Ela vai roubar’. Eu aguentei firme, mas, para os condôminos, deixei claro que, ou abríamos mão dele, ou teríamos de reajustar consideravelmente a cota, pois precisávamos de dinheiro. Apesar da comoção, concordaram. O zelador e a família reagiram mal à notícia. Durante o prazo legal para desocuparem o imóvel funcional, meu filho não podia descer para brincar porque o filho dele, maior, batia no meu.   

Ironicamente, esse episódio desgastante chamou a atenção de um gerente da administradora que passara a atender o condomínio. ‘Adriana, você conseguiu um feito, não pensa em ser síndica profissional? Podemos te indicar condomínios’. Desse modo, veio o meu primeiro condomínio como síndica profissional. Era um prédio de poucas unidades, padrão mais elevado, conselho machista. E, pior, que vinha de uma gestão profissional mal sucedida. No começo, mal me deixavam abrir a boca. Bater de frente não adianta. O que resolve é jogo de cintura. Assim, com jeitinho, me posicionei e provei que não era amadora. Fiquei quase cinco anos lá.   

Quando outros condomínios vieram, Fiz a transição completa para a sindicatura. Hoje, junto com um parceiro, administro 11 condomínios. Como case de sucesso, listo um prédio comercial em Pinheiros, onde promovi obras de acessibilidade e reforma no hall de entrada, contribuindo para a valorização patrimonial. Gosto de cuidar do patrimônio, mas também de cuidar das pessoas. Em prédios residenciais, gosto de pensar no condomínio como uma extensão da casa. A pessoa sai do apartamento, passa pelo hall, usa os espaços comuns e recebe alguém. Tudo precisa estar limpo, organizado e com aroma agradável.   

No início da sindicatura, se alguém reclamava de algo, eu achava que precisava resolver imediatamente e carregava aquele problema comigo. Não dormia. Com o tempo, aprendi que nem tudo é responsabilidade minha. Encontrei um ponto de equilíbrio. Mas precisei trabalhar isso em terapia e desenvolver inteligência emocional. Claro que, às vezes, exceções te tiram do eixo. No ano passado, tive herpes-zóster na face, fiquei internada oito dias, com risco de perder a audição do ouvido direito. O gatilho foi uma situação de muito estresse com funcionários de uma terceirizada que faliu.   

Para que os problemas dos condomínios me atinjam o menos possível, continuo com terapia e invisto em algo que gosto: cantar. No passado, participei de três musicais da Oficina dos Menestréis, companhia de teatro do Oswaldo Montenegro. Hoje, me contento em ir a karaokês, rs. Quem canta, seus males espanta. Não é o que dizem?”    

Adriana Araújo em depoimento concedido a Isabel Ribeiro        

Matéria publicada na Edição 326 – setembro/2026 da Revista Direcional Condomínios

Autor

  • Jornalista Isabel Ribeiro

    Jornalista apaixonada desde sempre por revistas, por gente, pelas boas histórias, e, nos últimos anos, seduzida pelo instigante universo condominial.