“Prefiro passar pelas adversidades com um sorriso no rosto” – Margareth Ferreira

Margareth Ferreira, 59 anos: vida marcada por desafios e resiliência

“Tive altos e baixos na vida, só cheguei até aqui porque venho de uma família de fé. Minha mãe era muito católica, minha avó, evangélica. Tenho irmão ministro da Igreja Messiânica, outro, evangélico. E eu sou candomblecista desde criança. Diversidade religiosa nunca foi uma questão, pois em casa aprendemos que as religiões são boas, o problema é o ser humano. O meu marido teve encefalite herpética em 2023 e sobreviveu com o apoio de várias religiões. Ele ficou com sequelas neurológicas, virou uma criança que não larga o celular nem quer tomar banho. Tem horas que quase perco a paciência, mas meu amor prevalece. Cultivo a resiliência e gratidão. 

Sou síndica orgânica há dez anos, e profissional há oito. Meu marido estava fazendo curso de síndico no Senac quando tudo aconteceu. Ele se aposentou como gerente do Banco do Brasil e tínhamos planos de atender a prédios comerciais do BB, cuja gestão só pode ser feita por aposentados do banco. Quando ele adoeceu, ficou um mês em coma. Foi difícil, mas não deixei meus condomínios na mão. Em 2020, perdi minha mãe para a Covid e mesmo diante da mais dilacerante dor, fiquei afastada só dois dias.

Lembro que bem no início da pandemia, síndicos diziam para ficarmos em casa. Como não sou melhor que o porteiro ou a faxineira, fui trabalhar e os funcionários não faltavam porque eu dava o exemplo. Esse é o papel do gestor. Pensei que a pandemia humanizaria a sociedade. Mas as pessoas pioraram; em condomínios enfrentei agressão física e ameaça de morte.

Cogitei deixar a sindicatura, porém o que eu mais gosto na minha vida é lidar com pessoas. Gosto de zelar pelo patrimônio delas, pelo sonho, porque o imóvel é a materialização do sonho. E tem outra coisa: trabalhar me dá disponibilidade financeira para ajudar comunidades carentes e a quem mais precisar, o que é vital para mim. Se o dinheiro não servir para ajudar o próximo, não me serve. Conheço os apertos da vida.

Vivi no conforto até os oito anos de idade, na zona norte do Rio de Janeiro, minha cidade natal. O meu pai trabalhava no Palácio da Justiça, a minha mãe tinha três empregadas e uma coleção de perucas. Sou a terceira de cinco filhos, depois viria o sexto, de criação. Quando meu pai perdeu o emprego, caiu no alcoolismo, uma doença que desestabiliza famílias. Ficamos sem nada, passamos fome e moramos em locais insalubres. Depois, fomos até separados e enviados para casas de parentes. Minha mãe nunca perdeu a fé. Trabalhou sem parar, como salgadeira, doméstica e costureira, e nos uniu novamente.

Comecei a trabalhar aos 11 anos como babá e doméstica. Na adolescência, trabalhei em loja de automóveis, escola e estudei à noite. Pegava trem na Central do Brasil duas vezes ao dia, fazia piadas com a superlotação e os passageiros riam. Quem reclama de tudo fica insuportável. Sendo possível, prefiro passar pelas adversidades com um sorriso no rosto. Aos 18 anos, entrei na Braun do Brasil, uma multinacional alemã. Fiz Administração de Empresas, mas não concluí a faculdade. Casei-me cedo e, aos 23 anos, nasceu minha filha Amanda, e aos 24, a Mariana. Ela faleceu poucas horas após o parto, e eu fui submetida a uma histerectomia de urgência e entrei em coma.

Pouco depois da alta hospitalar, meu marido saiu de casa. Com tanto para processar, tive anorexia associada à depressão; pesei 28 quilos! Tentei o suicídio duas vezes. Venci a depressão com terapia, medicação e, sobretudo, fé. Saí do emprego para empreender com a minha mãe em decoração. Ela fazia cortinas e colchas como ninguém. Esse trabalho me abriu as portas da alta sociedade carioca. Produzimos peças para as casas do Galvão Bueno e Sérgio Bermudes, um dos advogados mais influentes do país.

Ao transitar em outro patamar social, estive em Brasília e conheci o embaixador do Senegal. Aí, durante a Eco 92, que foi no Rio de Janeiro, ele decidiu simplesmente aparecer na minha casa, no Cachambi, para pedir minha mão em casamento, sendo que tinha várias esposas. Ele chegou em carro oficial, com batedores, bandeirinha, aquela loucura!  Eu morava com os meus pais e a Amandinha. A minha mãe teve assunto com as vizinhas por muito tempo.  

“Trabalhar me dá disponibilidade financeira para ajudar
comunidades carentes e quem mais precisar, o que é vital para mim. Se o dinheiro não servir para ajudar o próximo, não me serve.”

Nesse mesmo 1992, meu chão se abriu: Amanda teve câncer aos 4 anos de idade e até os 10 fez tratamento no Instituto Nacional do Câncer. Hoje, ela tem 37 anos, é dentista militar e mãe de três crianças. Para cuidar dela, me afastei da decoração e o dinheiro foi acabando. Quando a Amanda se recuperou, vim com ela e meus pais para São Paulo. Aluguei uma casa no Tucuruvi, na zona norte, e fui fazer faxinas para pagar o aluguel. Eu não me importava, só queria um recomeço de vida.

Pouco antes de deixar o Rio, eu havia feito contato com o representante da Swarovski no Brasil. Um pouco depois de me mudar de cidade, acabamos por retomar o contato e fui apresentada à Megs Cristais, pioneira na distribuição de cristais Swarovski no Brasil. Fiquei 15 anos nessa empresa, fui a número um de vendas em São Paulo, ganhei muito dinheiro e ajudei muita gente. Junto com meu segundo marido, que conhecera em São Paulo, comprei um apartamento em um prédio no Tucuruvi. Fui conselheira, subsíndica e síndica. Assumi o cargo para conter a desvalorização patrimonial. Fui estudar para conhecer os deveres e responsabilidades do síndico. Fiz um curso presencial de quatro meses, hoje existe formação aí de 24 horas!

Como síndica orgânica, consegui recuperar as finanças, quitar dívidas do não recolhimento de impostos, cessar uma despesa mensal de 600 reais com bombas e demitir um zelador ineficiente, reformar a elétrica e tirar AVCB. Em 2017 a Swarovski encerrou no Brasil as atividades que envolviam meu segmento e eu encontrei um recomeço com a sindicatura profissional. A administradora do meu condomínio me indicou para fazer a gestão de um prédio bacana, mas com imbróglio envolvendo a má impermeabilização da piscina. Acionamos a garantia da construtora, que fez serviço ruim e não dei aceite. A obra foi refeita, arcada pelos condôminos, e estamos brigando judicialmente com a construtora pelo ressarcimento. Antes dessa obra, teve unidade vendida por 500 mil reais. Hoje, os imóveis valem 1 milhão e duzentos.

Os meus condomínios vieram por indicação. Peguei um deles, em Santana, com saldo negativo de 24 mil e em cinco anos o entreguei com 590 mil no banco, mais pintura de fachada e manutenção em dia. Justo nesse condomínio quatro condôminos questionaram minha idoneidade. Abri quatro processos criminais. Quando o síndico trabalha honestamente, e pode provar, não tem porquê engolir sapo.”

Matéria publicada na edição 310 abr/25 da Revista Direcional Condomínios

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