Bets e jogos de azar online: quando o vício impacta o trabalhador e os condomínios

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O crescimento das bets e jogos de azar online no Brasil trouxe um alerta importante para empresas, síndicos e gestores de equipes: o avanço da dependência em apostas e seus impactos diretos na saúde emocional, no comportamento e na performance profissional.

A promessa de ganhos fáceis, divulgada de forma agressiva nas redes sociais e em aplicativos, tem atraído principalmente trabalhadores de menor renda, criando um cenário preocupante dentro de condomínios, empresas e prestadores de serviço.

O vício em apostas online e os riscos no ambiente de trabalho

A pessoa que desenvolve dependência em jogos pode apresentar ansiedade, irritabilidade, desatenção e alterações de humor, características que afetam diretamente funções que exigem vigilância constante, como portaria, controle de acesso, zeladoria e manutenção.

Segundo síndicos profissionais, já é possível observar casos em que trabalhadores passam longos períodos no celular durante o expediente, apresentam queda de produtividade, conflitos interpessoais e até comportamento agressivo após perdas em apostas.

Esses sinais não comprometem apenas o desempenho individual, mas também a segurança do condomínio, a convivência entre moradores e a qualidade dos serviços prestados.

Relatos de síndicos mostram como as bets afetam a rotina dos condomínios

O síndico profissional Jefferson Dias relata que precisou desligar um porteiro de um edifício comercial após sucessivas tentativas de orientação.

O funcionário, antes prestativo, passou a utilizar dois celulares durante o turno: um para apostas e outro para transmissões ao vivo de jogos. A conduta resultou em falhas no atendimento, desatenção na portaria e episódios frequentes de irritação. Em outro caso, a intervenção precoce evitou que um segundo colaborador seguisse o mesmo caminho.

Situações como essas mostram que o vício em jogos online já é uma realidade presente na gestão condominial.

Dependência em apostas: um problema que cresce entre trabalhadores

De acordo com profissionais da área de psicologia, relatos envolvendo jogos de azar online se tornaram mais frequentes no último ano. Há registros de trabalhadores que perderam estabilidade financeira, romperam vínculos familiares e entraram em ciclos repetitivos de salário, aposta, perda e afastamento do trabalho.

Gestores também apontam aumento de faltas após datas de pagamento, pedidos constantes de adiantamentos e queda acentuada no rendimento de funcionários envolvidos com apostas.

O que síndicos e gestores podem fazer

Especialistas reforçam que não cabe à gestão interferir na vida pessoal do colaborador. No entanto, é papel do síndico e da empresa zelar pelo ambiente de trabalho e pela qualidade do serviço.

Entre as medidas preventivas mais indicadas estão:

  • Promoção de palestras educativas sobre riscos das apostas online
  • Ações de conscientização financeira
  • Treinamentos voltados à saúde emocional
  • Reforço das normas internas sobre uso de celular no expediente
  • Encaminhamento para apoio profissional, quando há sinais claros de dependência

A informação é considerada a principal ferramenta para reduzir danos e estimular escolhas mais conscientes.

Vício em jogos é doença e tem tratamento

O vício em jogos de azar, chamado de transtorno do jogo (ludopatia), é reconhecido pela medicina. Pesquisadores explicam que ele atua no cérebro de forma semelhante a outras dependências, criando ciclos de impulso, alívio momentâneo e repetição do comportamento.

Com a popularização das bets em aplicativos, o acesso constante potencializa o risco. Especialistas alertam que não existe “jogo responsável” quando se fala em dependência: a forma mais segura de prevenção é não apostar.

Há tratamento disponível, que envolve acompanhamento psicológico e psiquiátrico, além de programas públicos de saúde e grupos de apoio.

Um desafio atual para síndicos e empresas

O avanço das apostas online transformou a ludopatia em um tema urgente na gestão de pessoas. Dentro dos condomínios, onde profissionais lidam diariamente com segurança, rotina e convivência coletiva, os impactos são ainda mais sensíveis.

Informar, prevenir e agir com responsabilidade é hoje uma das novas atribuições de síndicos e administradores atentos à saúde das equipes e à proteção do ambiente condominial.

Nem todo mundo fica viciado em bets, mas como o risco é grande, o psicólogo adverte: “Melhor não experimentar. E é preciso ficar bem claro que não existe jogar com responsabilidade. A única forma de responsabilidade em relação ao jogo é não apostar”. Além do fácil acesso aos cassinos virtuais, fatores como genética e baixa autoestima contribuem para a dependência, bem como a maturação cerebral ainda incompleta em crianças e adolescentes. “Existe tratamento e ajuda para se livrar da dependência, mas a pessoa tem que querer; precisa reconhecer que está doente e procurar ajuda. O tratamento é realizado por psiquiatra e psicólogo em conjunto”, diz o especialista. Em São Paulo, para tratamento gratuito há o Programa Ambulatorial do Jogo (PRO-AMJO), do HC. Já no Sistema Único de Saúde (SUS) e Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) o adicto pode procurar pelo tratamento básico em saúde mental. Para apoio, há os Jogadores Anônimos, com reuniões online e presenciais. A saber: https://jogadoresanonimos.com.br/       

Matéria publicada na edição 311 maio 2025 da Revista Direcional Condomínios

Autor

  • Jornalista Isabel Ribeiro

    Jornalista apaixonada desde sempre por revistas, por gente, pelas boas histórias, e, nos últimos anos, seduzida pelo instigante universo condominial.