Boatos, peraltices, infantilidades e situações inusitadas que marcaram condomínios

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Leia, a seguir, casos que fogem à rotina dos condomínios   

Síndico profissional Marcelo Del Persio

“Em 2014, assumi um condomínio depreciado e promovi muitas intervenções, mas a vizinhança pensou que eu estava acabando com o prédio, o que gerou boatos em série.

Marcelo Del Persio, síndico profissional   

Primeiro, instalei portaria remota, algo pouco comum alguns anos atrás; depois, iniciei uma obra de individualização de água e gás. No entendimento dos prédios vizinhos, eu havia demitido todos os funcionários e, não contente, começara a destruir a fachada devido às obras para passagem da tubulação de gás e estava quebrando as lavanderias para instalar relógios de água. O auge do equívoco foi quando o dono da empresa de portaria enviou seus gerentes para apreciarem o resultado exemplar da instalação. No dia da visita, uma van parou na porta do condomínio, e dela desceram 12 homens engravatados.   

Recebi os visitantes na entrada do prédio. Passei 20 minutos com eles, mostrando o perímetro e a infraestrutura externa de segurança, o que aguçou a imaginação fértil da vizinhança. Após me despedir deles, atendi à ligação de uma moradora que, entre choros e soluços, me acusava de inconsequente por fazer tantas obras ao mesmo tempo. Ela disse que já havia sido informada de que ‘um grupo de engenheiros’ tinha acabado de interditar o prédio. Queria saber se ainda dava tempo de retirar seus pertences antes que tudo desabasse. Tive de conter o riso para acalmá-la.   

Outra moradora, desta vez uma inquilina que morava sozinha, me procurou depois da implantação do sistema de medição de consumo da água. Jurou que a cobrança estava errada. A empresa veio, fez testes e não detectou nada anormal, mas ressalvou que deveríamos verificar o relógio dentro da unidade. Cuidei pessoalmente da questão. A moradora me recebeu em sua unidade, onde havia pilhas de roupas e uma lavadora funcionando a todo vapor. Perguntei a razão daquilo, e ela contou que as filhas traziam as roupas para ela lavar porque moravam em casas, e ‘lavar roupa no apartamento era bem mais barato’. Expliquei, então, que, antes da medição individualizada, a despesa com a água era rateada entre todas as unidades, mas que isso havia mudado, que todos estavam pagando pelo que realmente consumiam e que o consumo dela era alto. Uma das filhas veio, depois, me confrontar. Disse que a medida era um absurdo e que eu havia prejudicado a mãe dela.   

Um pouco antes da individualização do consumo de água e gás, um morador teve problemas com o sistema de aquecimento. Chamou um prestador de serviços sem qualificação para atendê-lo, que realizou a substituição das mangueiras de água e gás. Após a troca das peças, religamos a prumada, que havia ficado desligada durante a execução do serviço. Daí, o interfone da portaria congestionou de reclamações dos moradores. O prestador havia invertido as mangueiras. Com isso, saía água pela boca do fogão, e as torneiras, quando abertas, exalavam cheiro de gás. O rapaz ainda se encontrava na unidade quando começou o caos. Ao perceber o erro, entrou em desespero. Disse que iria buscar uma ferramenta no carro e simplesmente abandonou o navio.”   


Carol Cardim, síndica profissional   

“Chegamos ao mês das festas juninas, e uma das minhas histórias de condomínios serve de alerta porque envolve crianças. já as outras não têm crianças, mas sobra criancice…   

Carol Cardim, síndica profissional   

Tenho condomínios de perfis econômicos variados em carteira, e um deles, de menor renda, possui 20 torres baixas. Há um ano, um grupinho de crianças pequenas decidiu fazer uma fogueira junina no hall do último bloco do condomínio. Escolheram a área de demarcação do extintor, talvez por ser pintada, mais atrativa em comparação ao cinza do piso de cimento. Depositaram gravetos no local, acenderam o fogo e ficaram quietinhas, sentadas ao redor. Um morador sentiu cheiro de queimado, abriu a porta da unidade e levou aquele susto! Por sorte, agiu rápido e apagou o fogo com o extintor. Embora a peraltice fosse guiada pela inocência, precisei multar os pais. As crianças estavam desacompanhadas; correram risco de queimadura. E houve risco à segurança do condomínio. Se o fogo tivesse aumentado, poderia até atingir o quadro elétrico da torre, localizado pertinho do extintor.   

Já em um condomínio horizontal, o autor da traquinagem foi um cachorro da raça pug, que movimentou a rotina calma ao resolver desfilar pelos telhados dos sobrados. Saiu pela janela da casa da tutora, aparentemente subindo em uma cadeira próxima à janela, e dali alcançou o telhado, seguindo para os demais, que ficam muito próximos uns dos outros. Os moradores, todos com animais de estimação nos quintais, temiam que ele caísse, se machucasse com a queda e ainda fosse atacado pelos outros cães. O que se seguiu foi tão inusitado quanto haver um cão no telhado: vários moradores apareceram em suas janelas, munidos de cabos de rodos e vassouras para guiar o pet em segurança no retorno à casa dele, em uma mobilização que deu certo.   

Esse mesmo condomínio foi cenário de uma criancice de gente grande. Há uma entrada para pedestres e outra para veículos. Quando foi implantado o sistema de reconhecimento facial para a abertura do portão de pedestres, um morador enrolou para fazer o cadastramento. Toda vez que saía a pé, apertava o botão para usar o portão de veículos. Enviei uma notificação, e ele resolveu ironizar a situação. Desenhou um volante em uma cartolina e, ao passar pelo portão de veículos, olhou para a câmera e simulou estar dirigindo. Detalhe: a pessoa estava na casa dos 50 anos!   

Em um condomínio de estúdio, com perfil de classe média alta, uma moça que morava sozinha fez amizade com um casal mais velho. Um belo dia, deixaram de ser amigos e, aí, ela passou a fazer pirraça. Tocava a campainha deles e saía correndo. Um dia, o morador se encheu e fez a denúncia, certo de que era ela a autora da façanha. Puxei várias imagens das câmeras do corredor e não deu outra. Ela fugia rapidamente, sempre morrendo de rir. Mais infantilidade, impossível.”   

Depoimentos concedidos a Isabel Ribeiro      

Matéria publicada na edição 323 junho 2026 da Revista Direcional Condomínios

Autor

  • Jornalista Isabel Ribeiro

    Jornalista apaixonada desde sempre por revistas, por gente, pelas boas histórias, e, nos últimos anos, seduzida pelo instigante universo condominial.