CondoCausos: quando a falta de bom senso vira caso de polícia

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Quando o egoísmo e o desrespeito ao próximo e ao espaço alheio ultrapassam todos os limites   

síndico profissional  José Roberto Garzillo,

“Lidamos com muitos absurdos em condomínios. em duas ocasiões, me pediram a ‘cabeça de funcionário numa bandeja’ por razões tão particulares!   

José Roberto Garzillo, síndico profissional 

Fui bastante pressionado a demitir pessoas em ambas as situações, mas não cedi, afinal, não havia motivos que justificassem os desligamentos. A primeira delas envolvia um casal que, ao que tudo indicava, não vivia bem. A mulher se envolveu com um porteiro. Nos encontros dos amantes, a estrutura de madeira da cama batia fortemente no chão, ressoando no apartamento abaixo. Incomodado, o vizinho reclamou com o zelador. Este procurou o marido e comentou que alguns moradores reclamaram da performance sexual do casal, pois a cama fazia muito barulho etc. O marido disse se tratar de algum engano, mas o zelador insistiu que os vizinhos tinham certeza de onde vinha o barulho. Então, o marido confidenciou que aquilo era impossível, porque sua vida íntima estava morna. No entanto, logo depois, ele constatou a traição. O porteiro, temendo alguma reação drástica, pediu as contas. Já o marido, com o orgulho ferido, exigiu a demissão do zelador. Tinha medo de que ele tornasse pública a infidelidade da esposa.   

Em outro condomínio, um vigia estava percorrendo as dependências das torres quando se deparou com uma moradora fazendo sexo com o namorado na escada de incêndio. Indignada com o flagrante, ela insistiu para que o vigia fosse demitido, talvez por receio de que ele contasse aos outros funcionários o que presenciara. Esse vigia era muito correto e me falou humildemente que estava no lugar errado, na hora errada, ao que eu retruquei: se havia alguém no lugar errado, com certeza não era ele. Em nenhum momento pensamos em dispensá-lo, e ele sabia disso. Mas a moradora demorou a sossegar, por isso, algum tempo depois, ele aceitou uma proposta para trabalhar em outro prédio.   

Há pessoas afeitas a discussões, incapazes de se conter. Em um residencial de classe média na zona norte, deu até polícia na porta, o que incomodou os demais moradores, porque é algo que chama a atenção de quem vive no entorno. Se ainda fosse por um motivo sério, seria compreensível. Mas não: a moradora agiu cega de raiva. Semanas antes, ela já estava criando problemas. O condomínio passava por dificuldades financeiras, e uma das medidas de economia foi desligar o trocador de calor da piscina durante o inverno. Quando ocorreu um veranico, ela tentou mobilizar os moradores para conseguir a liberação da piscina. Mas não fazia sentido ligar o equipamento e tornar a desligá-lo nos dias mais frios. Esperamos a chegada da primavera, como fora determinado. Mas, ao ser religado, um trocador de calor não aquece a água instantaneamente. Afoita, ela não considerou esse fato, achou a água fria e chamou a polícia. No entender dela, a gestão estava atrapalhando seu banho de piscina.”   


“O condomínio pode até ser bom e organizado, mas é habitado por certos seres humanos que podem surpreender com hábitos desagradáveis e anti-higiênicos.   

Danilo Dias, síndico profissional  

Administro alguns residenciais de alto e médio padrão na zona sul e sinto vergonha em contar, mas a verdade é que já me deparei com casos envolvendo esperma e urina em áreas comuns, o que resultou na aplicação de medidas disciplinares. Em um deles, um prédio com mais de 100 unidades, morava um rapaz que frequentemente recebia mulheres vistosas. A cada visita, uma beldade diferente e o mesmo ritual: uma camisinha usada atirada pela janela. Os funcionários geralmente recolhiam o objeto, mas, em uma das ocasiões, uma moradora viu, fotografou e postou o achado no grupo de WhatsApp. Imagina o rebuliço. A essa altura, já estávamos prestes a identificar o infrator, graças a uma combinação de informações. Ele negou, mas, como me mantive firme, alegando ter evidências, acabou acatando a punição e pagando a multa, além de abandonar o constrangedor costume.   

Quase na mesma época, em outro condomínio, um morador estacionou sua moto em uma das vagas destinadas a esses veículos, no segundo subsolo, desceu e parou em frente a um tanque de lavar roupas, localizado no mesmo pavimento e destinado ao uso da equipe de limpeza — inclusive, havia panos de chão dentro dele na ocasião. Sem a menor cerimônia, o homem urinou no tanque. Ao menos esse foi rapidamente identificado quando consultamos as imagens das câmeras de segurança.   

Em um terceiro condomínio, estávamos de olho em um novo morador do primeiro andar. Desde sua chegada, começaram a aparecer pontas de cigarro de maconha no gramado, jogadas da janela. Calhou de ele dar uma festa num sábado, e os moradores reclamaram do odor de ‘mato queimado’ vindo do salão. Fui lá, falei com ele e me identifiquei. Alheio à realidade, ficou repetindo: ‘Não é maconha, é tabaco’. Na segunda-feira pela manhã, ele me enviou uma mensagem pelo WhatsApp. Meu perfil não tem foto, mas talvez nem com uma ele conseguisse me reconhecer. Sabem o ele queria? Reclamar de um ‘sujeito ignorante’ que havia aparecido em sua festa e acusado os convidados e ele próprio de estarem fumando maconha!   

Mais uma vez, me apresentei, disse que eu era o tal sujeito, expliquei que tinha o dever de zelar pela segurança e salubridade e que ele seria advertido, pois não se permitia fumar em locais coletivos, como o salão de festas. Também o alertei sobre o perigo de arremessar pontas de cigarro pelas janelas. Agi com serenidade, mas, por dentro, estava muito indignado com tamanha cara de pau.”   

Depoimentos concedidos a Isabel Ribeiro  

Matéria publicada na Edição 328 – nov-dez/2026 da Revista Direcional Condomínios

Autor

  • Jornalista Isabel Ribeiro

    Jornalista apaixonada desde sempre por revistas, por gente, pelas boas histórias, e, nos últimos anos, seduzida pelo instigante universo condominial.