Alex Macauba: “Coragem me define, se não, como viveria da sindicatura?”

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Alex Macauba, 51 anos — 10 dedicados aos condomínios; atua no Grande ABC e na Baixada Santista  

“Virei síndico para não carregar saco de cimento. O que tem seu fundo de verdade. Eu cresci dentro do depósito de material de construção dos meus pais, em Santo André. Eu fazia muita bagunça, brincando com areia, pedras e tijolos. Aos 8 anos, tentava ajudar minha mãe no atendimento, mas a lida para valer começou aos 14, quando meu pai decretou que eu trabalharia depois da escola. Às vezes, coincidia de ele e o ajudante não estarem na loja e chegar um cliente atrás de cimento. Aí eu carregava sozinho um saco de 50 quilos. Aos 15 anos, eu já dirigia caminhão e fazia entregas, tendo de descarregar os materiais. Em contrapartida, meus pais me deram carro, moto, celular ‘tijolão’, um luxo na época. Mas peguei bronca do depósito.   

Em 1994, vi uma chance de ganhar dinheiro com locação de CDs, que eram caros. Vendi a moto, fui a um hipermercado e comprei todos os CDs à venda. Os meus pais me emanciparam e aos 16 anos abri uma locadora. Depois passei a trabalhar também à noite, atuando como DJ, quase nem dormia. Mas tive êxito: dos CDs passei à locação de DVDs e cheguei a ter filiais. Vivia bem e pude construir minha casa. Mas surgiram os filmes pirata e quebraram as videolocadoras. Tive de fechar as portas. Apostei, então, em uma loja de informática com lan house, um serviço que teve saída por alguns anos.   

Sou graduado em administração, nunca frequentei um curso de tecnologia. Mas sou do tipo curioso, que aprende na raça e o YouTube me ajudou muito a entender sobre manutenção de computador de mesa, e, posteriormente, notebook – cheguei até a atender profissional de TI. Quando os computadores e a internet ficaram acessíveis, as lan houses perderam espaço. Fiquei apenas com manutenção de notebooks, mas a dificuldade em encontrar peças de reposição me apontou um novo nicho. Comprei muitos notebooks de ponta de estoque para poder desmontar e vender suas peças no e-commerce. Assim me reergui, mas veio a popularização dos smartphones, muita gente foi deixando o notebook meio de lado, e me vi tendo de me reinventar de novo. E aqui entram os condomínios.   

Na fase da lan house, minha esposa e eu compramos um imóvel em um empreendimento com 535 unidades e infraestrutura de lazer para que nosso filho, único até então, tivesse outras crianças para brincar. Esse condomínio foi erguido numa região industrial de Santo André, àquela altura em processo de revitalização. Nem a construtora botava fé que o local ficaria valorizado (e valorizou muito!), por isso ela entregou espaços de lazer mixurucas. Durante a implantação, a síndica profissional, sob suspeita de mau uso de verba, foi obrigada a renunciar. A chegada de uma nova síndica, que possuía uma administradora, ajudou a moldar o meu destino, pois fiquei muito próximo de seu trabalho enquanto conselheiro. Fui além: pedi para ir junto nas assembleias dos outros condomínios. Frequentei mais de 60, algumas surreais, com faca, revólver, cadeiradas. Ao mesmo tempo, fiz curso de sindicatura na Gábor.  

Essa síndica ficou apenas um ano no condomínio, porque havia muita picuinha, e me indicou para o lugar dela. Concorri ao posto como síndico profissional e fui eleito, mas exigi que houvesse auditoria durante a minha gestão, a qual já dura 10 anos. Fizemos melhorias na piscina, academia, no playground, nas salas de jogos e nos salões de festa. Trouxemos padaria, mercadinho e feira para comodidade dos moradores. E diminuímos as brigas ao investir em eventos para aproximar a comunidade. Temos um paisagismo muito agradável e estamos na segunda obra de pintura. Os prédios vizinhos foram concebidos com maior capricho, mas hoje o nosso não fica atrás. O aluguel de nossas unidades se equipara aos deles. Os imóveis têm alta liquidez.   

O meu nome ganhou certa visibilidade no mercado da sindicatura ao aparecer na mídia, em participações no programa Cond TV (YouTube) e em reportagem-denúncia da Rede Bandeirantes, quando uma famosa construtora sujou inúmeros carros do condomínio com material da obra vizinha. Não foi essa a intenção, mas contribuiu para me trazer novos condomínios. Algumas pessoas que haviam morado no prédio, indicaram a mim e minha esposa, e parceira de trabalho, para a gestão em seus novos endereços. Rapidamente atingimos o patamar de 25 condomínios, mas o estresse prejudicou minha saúde. Tive depressão, ansiedade e internações por diverticulite. Hoje, atendemos um número parecido de condomínios, porém com equipe maior, porque, além do Grande ABC, atuamos na Praia Grande.   

A inclusão do litoral veio quando adquirimos um apartamento na praia. Eu havia prometido ao meu filho caçula que ali eu não seria síndico, mas quebrei a promessa logo na assembleia de implantação porque notei muitos erros de acabamento e escutei muita bobagem. Eu trabalhei de graça durante um ano, não pedi sequer isenção de taxas. O meu foco era resolver problemas. Só para dar um exemplo do volume de coisas erradas, notifiquei a construtora apresentando um relatório com 300 páginas. Esse condomínio abriu as portas para outros na praia. Muitos imóveis são de veraneio, onde as pessoas querem cantar, ouvir música alta, pendurar roupa na sacada. Acham que tudo é festa, e não é. Eu não sou autoritário, mas regras precisam ser cumpridas.   

Além da sindicatura, tenho um podcast sobre condomínios para tirar dúvidas de colegas do segmento. Montei o estúdio, aos poucos, sem ajuda técnica, e o uso para gravar também prévias de assembleias para os condôminos. No dia da reunião, só precisam votar. Minhas assembleias costumam ser tranquilas. Chego com antecedência, instalo os recursos audiovisuais, coloco um vídeo de natureza, com música suave, e fico na porta para receber um a um. Depois vou para o palco e conduzo a assembleia com técnicas de PNL.    

Administro tanto condomínios com unidades de sete milhões quanto condomínios populares. Evito pegar condomínio emergente, com pessoas que têm um BYD financiado que chamam de carro de luxo, acham que ‘pagam o meu salário’ e destratam funcionários. Já me deparei com muita situação errada, quando posso evitar alguns condomínios, evito, quando não, enfrento. Coragem me define, se não, como viveria da sindicatura?”    

Alex Macauba em depoimento concedido a Isabel Ribeiro       

Matéria publicada na edição 318 janeiro 2026 da Revista Direcional Condomínios

Autor

  • Jornalista Isabel Ribeiro

    Jornalista apaixonada desde sempre por revistas, por gente, pelas boas histórias, e, nos últimos anos, seduzida pelo instigante universo condominial.