
“Não notifico moradores, aplico multas ou aciono a justiça por impulso. reflito muito antes de agir e, quando me decido, não volto atrás.
Eduardo Araújo Bim, síndico profissional e advogado
Certa vez, por conta de uma situação inusitada envolvendo seis adolescentes, precisei multar cinco unidades de uma só vez – dois dos infratores eram irmãos. E isso sob o olhar consternado das mães. Tudo porque resolveram ‘brincar’ de acertar as janelas das demais torres de um condomínio de classe média-alta. O episódio ocorreu em uma tarde de domingo. O topo de uma das torres estava em reforma, e o grupo burlou uma barreira de segurança para acessar o local, onde havia pedras e areia. Em seguida, passaram a arremessar pedras nas janelas, estilhaçando vidros e danificando objetos.
Os danados tinham boa pontaria! Acertaram a porta de inox da geladeira de uma cozinha e atingiram o box do banheiro de uma moradora que acabara de sair do banho. Houve reclamações de diversos moradores, e foram necessárias três reuniões entre os pais dos adolescentes, todos menores de idade, e os representantes das unidades atingidas. Os prejuízos foram ressarcidos pelas famílias, que também arcaram com as multas aplicadas pelo condomínio.
Em outro empreendimento, todo sábado surgia uma poça de urina na escada de incêndio, na parte do subsolo das garagens. Esse condomínio tem mais de 600 vagas de veículos, e não havia câmeras nas escadas de incêndio. Como identificar o autor da façanha? Em conversa com os funcionários, um deles sugeriu que poderia ser um pai que buscava o filho, de cerca de 12 anos, no futebol, pois, em uma das ocasiões, a urina foi encontrada logo após a dupla passar pelo hall da garagem. Montamos, então, uma investigação que durou dois sábados e confirmou a suspeita.
Em ambas as vezes, a câmera do hall registrou a chegada de pai e filho. O garoto chamava o elevador, enquanto o pai acessava a porta corta-fogo da escada. Logo depois, voltava sorridente, e os dois subiam para a unidade. Os funcionários monitoraram a escada antes e depois da chegada desse morador. Não havia erro. Eu o chamei à administração, disse que tinha provas, e ele admitiu o ato, alegando problemas na próstata. Depois, sem apresentar qualquer documento médico que comprovasse a condição, procurou isentar-se da multa. Ponderei que o conselho não havia acatado a justificativa, mas que ele poderia recorrer à assembleia. Óbvio que não quis. Chamou-nos de intolerantes, mas pagou a multa e parou com a prática anti-higiênica.
Tornei a lidar com urina na escada no mesmo condomínio, mas, dessa vez, tratava-se realmente de um problema de saúde. O caso envolvia um morador de 98 anos e foi conduzido com humanidade. Era doença, não descaramento.”

“Sempre faço uma pré-assembleia para otimizar o andamento dos encontros oficiais. Em uma dessas ocasiões, percebi a divergência entre discurso e ação de um morador.
Fernanda Ramos, síndica profissional
Durante esse encontro, com cerca de 12 pessoas, um senhor propôs, sem mais nem menos, mudarmos a fonte das atas para Times New Roman, pois, segundo ele, isso daria maior confiabilidade ao documento. Nosso foco, porém, era a pintura da fachada, como a escolha do tom de cinza mais próximo do grafite original. Mesmo ciente de que o padrão não seria alterado, ele passou a discorrer sobre a psicologia das cores, insistindo que o tom escuro despertava emoções tristes, enquanto o amarelo e o azul transmitiriam energia positiva. Parecia interessado no bem-estar coletivo. Ao fim da reunião, ao sairmos da sala, nos deparamos com um morador carregando uma caixa, cujo fundo se rompeu, espalhando o conteúdo pelo chão e pelos degraus da escada. Imediatamente, começamos a ajudá-lo, exceto uma pessoa: a mesma que estava ‘tão preocupada’ com as emoções que as cores poderiam despertar nos outros.
A falta de bom senso transborda em condomínios. Lembro-me de uma mãe que decidiu ocupar parte de sua vaga de veículo com o brinquedo do filho. Era uma pista enorme para carrinhos Hot Wheels, tão incrível que até eu fiquei com vontade de brincar, assim como o cachorro de outra moradora, que correu para conferir a novidade. O brinquedo permaneceu na vaga por alguns dias, até que tomei ciência do fato. Conversei com a moradora e pedi que o retirasse. E qual foi a resposta? “Minha sala é pequena, não tenho onde deixá-lo.” Só depois de muito explicar que as vagas se destinam exclusivamente a veículos, que outros carros poderiam, sem querer, ‘atropelar’ a pista de carrinhos e que crianças poderiam se sentir atraídas a brincar na garagem — o que representava um risco — é que a moradora concordou com a remoção.
Atuar como síndica é muito prazeroso. O que lamento é que alguns moradores não percebam que nosso tempo poderia ser melhor empregado em questões como vazamento na caixa de esgoto ou AVCB vencido, e não em situações descabidas.”
Depoimentos concedidos a Isabel Ribeiro
Matéria publicada na Edição 325 – agosto/2026 da Revista Direcional Condomínios
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