Francisco J. Santos: dos vagões de trem à sindicatura profissional, uma trajetória de compromisso

No momento, você está visualizando Francisco J. Santos: dos vagões de trem à sindicatura profissional, uma trajetória de compromisso

“O meu diferencial é a disponibilidade para o condômino”

Francisco J. Santos (ou Chico 220): da estabilidade na zeladoria à administração de prédios de alto padrão  

“Muitos aprendem estratégias de venda em workshops, e está tudo bem. Comigo, a escola foram os vagões de trem, em viagens entre Rio Grande da Serra e a Estação da Luz, onde vendi doces e salgadinhos dos 10 aos 13 anos, experiência que trouxe ganhos em extroversão e flexibilidade. Hoje, tenho 48 anos, sendo os últimos 16 dedicados à sindicatura profissional. Quando surge um problema, resolvo logo ou vou atrás de quem saiba resolvê-lo. Esse estilo acelerado herdei dos tempos de trem, assim como a facilidade de me comunicar, de mostrar meu valor nas concorrências e de conduzir assembleias.  

Minha vida sempre foi intensa, desde garoto. Mas jamais fiz dos obstáculos motivo para lamentações. Minha mãe precisava de mim para ajudar a construir a nossa casa e pôr comida na mesa. Ela era incrível, batalhadora. Migrou do interior do Piauí para Mauá, no Grande ABC, conseguiu emprego em uma metalúrgica e voltou para buscar os filhos — entre eles, eu, com quatro anos de idade. Em Mauá, moramos em comunidades. Gradativamente, com trabalho honesto e estudo, todos conseguimos nos mudar para bairros melhor localizados.  

Fui criado em um lar humilde, onde minha mãe, com sabedoria, me ensinou o valor do respeito às pessoas e às suas diferentes crenças. Sou cristão e sinto uma forte conexão com Deus, a quem vejo no sol, na natureza e em cada novo dia que começa — para mim, por volta das quatro e pouco da manhã, quando me levanto para me arrumar para o trabalho. Sou abençoado, mas nunca deixei meu semelhante para trás. Na época do trem, eu vendia bastante e ganhava, por mês, o equivalente hoje a três ou quatro mil reais. Sem contar para minha mãe, eu separava dez por cento desse valor para ajudar pedintes com filhos pequenos nas estações. A filantropia nos fortalece.  

A jornada de ambulante complicou minha vida escolar; busquei, então, algo que me possibilitasse ter uma rotina conciliável com os estudos — tirei o atraso com a ajuda de supletivos e, anos mais tarde, me graduei em Administração de Empresas. Consegui emprego em uma sapataria em São Caetano do Sul. Aprendi rápido o ofício de sapateiro e, quando o dono decidiu se desfazer de antigos maquinários, eu os comprei para abrir meu próprio negócio em Mauá. Um dia, me deparei com a loja vazia: havia sido roubado por meu sócio, que ainda me deixou com as prestações das máquinas para pagar. À época, com 17 para 18 anos, eu já havia conhecido minha futura esposa, e nossa primogênita estava a caminho.  

Meu padrasto soube de uma vaga para faxineiro em um condomínio residencial na zona sul de São Paulo e se propôs a indicar meu nome. Topei. Durante a entrevista, acharam que meu perfil, muito polido, se adequava melhor à portaria, posição que ocupei por um ano. Em seguida, fui promovido a zelador, o que trouxe certa estabilidade, pois passei a receber um salário melhor e a ter direito à moradia no local. Posteriormente, em dois condomínios de implantação onde atuei como gerente predial, consegui, por meio de argumentos, ocupar a casa do zelador. Em todos esses condomínios, minha família pôde usufruir dos equipamentos de lazer sem que torcessem o nariz.  

Em um desses condomínios, um megaempreendimento com cerca de mil unidades na região da Paulista, conheci o incorporador. Ele apareceu no local em uma tarde de sexta-feira e solicitou que eu o acompanhasse em uma vistoria. Antes de ir embora, encomendou um relatório para a manhã de segunda- feira. Preparei o material e o encaminhei ainda na sexta. “Chico, você é ligado no 220”, comentou. Daí nasceu o Chico 220, apelido que pegou no segmento condominial. Dois anos se passaram e, a essa altura, eu já havia alugado um apartamento no Campo Belo, na zona sul, onde morava com minha esposa, mulher belíssima, e nossos três filhos, e trabalhava como gerente predial em um residencial no Tatuapé, na zona leste, de outra incorporadora. Um dia, porém, esse mesmo empresário me ligou com uma proposta: assumir como síndico profissional uma implantação em Pinheiros, na zona oeste.  

Sabe aquela história de eu ser uma pessoa desenvolta?  

Pois, mesmo me sentindo preparado para o novo desafio e já tendo, inclusive, feito cursos de sindicatura, tremia feito vara verde na minha primeira AGI. Mas isso aconteceu apenas nessa ocasião; logo peguei o ritmo. Afinal, eu amo pessoas, amo servir com excelência e contribuir para que famílias vivam bem e com segurança. Após esse início, a incorporadora me indicou outras implantações em bairros nobres, sendo a mais emblemática a do Horizonte JK Home & Offices, no Itaim Bibi. A inauguração ficou a cargo de Márcio Rachkorsky e teve show de Roberto Carlos, parceiro comercial do imponente empreendimento de 46 pavimentos.  

Fiquei cinco anos à frente do Horizonte. Fiz um bom trabalho, mas desagradei a algumas pessoas quando troquei prestadores de serviço, decisão que resultou em uma economia considerável. Perdi o condomínio por pouquíssimos votos; saí de lá triste, mas hoje entendo que essas situações nos fazem crescer. De lá para cá, vieram muitos outros bons condomínios da mesma incorporadora, além de empreendimentos provenientes de outras indicações — de moradores, administradoras e empresas do setor. Não mudei meu sistema de trabalho por causa disso. Vou sempre priorizar o que for melhor para o condomínio, trocando quem e o que for preciso. Há seis anos, cuido de um grande empreendimento comercial na Vila Leopoldina — o maior contrato da minha carteira. Também administro outros residenciais e comerciais. Não fiquei rico na sindicatura, mas conquistei imóveis, veículos, boa formação para meus filhos e, sobretudo, uma reputação ilibada.  

A minha marca é estar à disposição do condômino praticamente 24 horas por dia e servi-lo com mais humanidade e comprometimento. Síndico precisa ser acessível. Meu diferencial é a disponibilidade para o condômino. Quando, ao assumir a gestão, você divulga seu WhatsApp na mídia do elevador, transmite credibilidade e segurança. Mas deixo claro que o contato é para emergência, e não para reclamação de cocô de cachorro. Outra característica minha é valorizar e motivar o colaborador, seja dando um mimo no aniversário ou levando um chocolate quente na guarita em uma madrugada fria. Vejo muitas posturas arrogantes no mercado. Síndico não deve zelar apenas pela construção; é preciso zelar pelo próximo.”  

Francisco J. Santos em depoimento concedido a Isabel Ribeiro           

Matéria publicada na edição 319 fevereiro 2026 da Revista Direcional Condomínios

Autor

  • Jornalista Isabel Ribeiro

    Jornalista apaixonada desde sempre por revistas, por gente, pelas boas histórias, e, nos últimos anos, seduzida pelo instigante universo condominial.