Gestão sob ataque nos condomínios

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Síndicas relatam episódios de sabotagem, vandalismo e desperdício, enfrentados com firmeza, legalidade e gestão estratégica para proteger o condomínio. Confira. 

 “Quando é necessário pacificar um condomínio, o síndico precisa ser firme e perseverante se quiser obter resultados.  

Luciane Prado, síndica profissional

Ingressei na sindicatura exercendo mandato-tampão. Na época, eu era inquilina, recém-chegada ao condomínio onde eu e meu esposo planejávamos comprar um imóvel, o que veio a se concretizar. Eu aceitei ser síndica porque tinha o maior interesse em fazer dali um lugar melhor, mas o grupo que me instigara a me candidatar me queria como figurante. Fui contra, sofri retaliação, lutei e venci. Hoje, o condomínio, em um bairro arborizado da zona sul de São Paulo, vive em paz, e as unidades valem quase 50% a mais.   

Estou na gestão há seis anos, e, no comecinho do primeiro deles, a faxineira viu o que pareciam ser bonequinhos enterrados no jardim e me chamou. Até cogitei ser brinquedo de criança, mas, ainda assim, pedi que uma moradora religiosa me acompanhasse ao local. Essa senhora, então, desenterrou uma boneca gordinha como eu, com meu nome amarrado; e outra, com o nome da conselheira. Ela pediu que eu não encostasse nos objetos e fez um ritual antes de jogá-los fora. Passado um mês, apareceu um despacho na calçada do prédio e, depois, jogaram um líquido estranho e terra de cemitério na minha porta. Como sou espiritualizada, não me assustei; me sinto protegida e creio que o feitiço se volta contra o feiticeiro.   

O ‘grupo do mal’ era encabeçado por uma moradora que encorajava algumas pessoas a criarem situações que pudessem desabonar meu trabalho ou me irritar. Eram tão infantis que eu me sentia numa creche. Interfonavam de madrugada e, quando eu atendia, ficavam mudas ou caíam na risada. Precisei colocar uma bina no aparelho para identificar os chamados. Depois disso, bastou eu atender a uma dessas ligações dando um sonoro ‘boa noite’, seguido do nome do morador, para que cessassem os trotes. Já outra moradora tinha o hábito de descer à noite de baby-doll. A intenção era óbvia: provocar a fúria das mulheres casadas, que, inseguras com seus maridos, me cobrariam uma atitude. E, claro, foi o que aconteceu!   

Mas uma das situações mais incoerentes era o vandalismo com o intuito de parecer falta de zelo da gestão. Danificavam equipamentos contra incêndio nos andares, removiam lâmpadas dos halls e escadas de incêndio e sujavam os degraus com fezes e urina de pets, urina de humanos, preservativos usados e esfregavam absorventes sujos. Para coibir essas ações, instalei plafons, dificultando a retirada das lâmpadas, e câmeras nos andares. Passei a divulgar no grupo oficial imagens do vandalismo, sem expor os desordeiros, de modo que a própria comunidade começasse a se sentir envergonhada. Agi sempre dentro da lei; quando preciso, notifiquei, multei. Mostrei que existem regras. Algumas pessoas contrárias à gestão já se mudaram, outras entenderam que destruir o patrimônio é dar um tiro no próprio pé.”   


“Tenho respeito pela oposição que sabe argumentar, mas não tolero ações irracionais que prejudicam a gestão e os moradores.     

Nubia Camargo, síndica profissional 

Faz 12 anos que sou síndica no condomínio onde moro, em Cotia, o que me levou à gestão de outros edifícios desta cidade da Grande São Paulo. O meu perfil questionador me colocou na gestão, mas precisei provar minha competência aos que, preconceituosamente, me viam apenas como ‘marombeira de academia’. Coisas inacreditáveis aconteceram com o objetivo de minar financeiramente minha gestão, e que prejudicaram moradores e desperdiçaram recursos naturais.   

A leitura de água e gás era coletiva quando assumi o condomínio e, de repente, o consumo de água aumentou drasticamente. Contratamos uma empresa de caça-vazamentos, mas nada foi encontrado. Então, uma moradora de uma das torres me procurou para relatar que vinha ouvindo, havia algum tempo, um ruído na unidade acima, como se houvesse vazamento de água 24 horas por dia. Procuramos o condômino, oponente que dificultou ao máximo o acesso à sua unidade, e somente com intervenção do nosso jurídico foi possível permitir a entrada da empresa especializada. Constatou-se uma falha no mecanismo de enchimento das caixas acopladas dos vasos sanitários, que estavam sem a regulagem do ladrão, fazendo com que a água transbordasse continuamente dentro do vaso. A unidade pagou a multa sem questionar.   

A questão da água se normalizou, mas apenas por dois ou três meses. Diante de nova alta de consumo e considerando o episódio anterior, começamos a desconfiar que poderia haver problema semelhante no imóvel de outra moradora, também contrária à gestão e adepta a conchavos no pequenino grupo de opositores. Mais uma vez, uma vizinha deu o alerta, comentando que, no apartamento garden localizado abaixo da unidade em que ela morava, o quintal mais parecia uma piscina devido ao acúmulo de água. De fato, a proprietária saía para trabalhar e deixava a mangueira recolhida em um canto, porém com a torneira aberta, desperdiçando água limpa. A unidade foi penalizada, pagou a multa, mas a condômina negou veementemente ter agido de forma deliberada. Pouco depois, colocou o imóvel à venda.   

Na época dessas possíveis sabotagens, tivemos um problema com o gás GLP, coincidindo em afetar somente o cilindro que abastecia a mesma torre das unidades mencionadas. O gás acabou muito antes do previsto e, naturalmente, choveram reclamações dos moradores. Fizemos testes de estanqueidade, entre outros, e nada foi identificado. Funcionários da empresa nos alertaram que uma possibilidade de desperdício é quando deixamos os queimadores do fogão acesos, pois o gás continua a queimar. Convoquei imediatamente uma assembleia, expus os acontecimentos — sem mencionar nomes ou unidades suspeitas — e assim aprovamos a individualização do consumo de água e gás.”   

Matéria publicada na edição 318 janeiro 2026 da Revista Direcional Condomínios

Autor

  • Jornalista Isabel Ribeiro

    Jornalista apaixonada desde sempre por revistas, por gente, pelas boas histórias, e, nos últimos anos, seduzida pelo instigante universo condominial.