Gerir um condomínio é como pilotar um avião?
A administração de condomínios e a aviação compartilham uma base comum: a dependência de processos rigorosos de checklist. Paulo Werneck, síndico profissional e piloto internacional, destaca que, assim como um piloto, o síndico não realiza a manutenção pessoalmente, mas precisa conhecê-la a fundo para garantir a segurança de todos.A inspeção predial não é a solução definitiva, mas sim uma auditoria técnica que orienta o plano de manutenção e ajuda a definir as prioridades de reparo no condomínio.
1. As Normas ABNT que todo síndico deve conhecer
Para uma gestão baseada na engenharia e na segurança jurídica, o síndico deve seguir as diretrizes das normas técnicas brasileiras:
1.1. Principais normas de manutenção e inspeção
| Norma ABNT | Título / Objetivo | O que define para o Síndico |
| NBR 5674 | Gestão da Manutenção de Edificações | Estabelece os requisitos para o sistema de gestão, visando preservar o desempenho e prevenir a degradação. |
| NBR 16747 | Inspeção Predial: Diretrizes e Procedimentos | Avalia as condições técnicas da edificação, identifica falhas de manutenção e aponta ações necessárias. |
2. Inspeção predial vs. plano de manutenção: qual a diferença?
O engenheiro Claudio Silva utiliza a analogia da saúde: a inspeção é o “exame de rotina” (diagnóstico), enquanto a manutenção é o “hábito saudável” (tratamento).
- A Inspeção Predial: Funciona como uma auditoria do plano de manutenção. Ela coloca luz sobre o problema, identifica anomalias e aponta o que é crítico, mas não resolve o defeito por si só.
- O Plano de Manutenção: É o acompanhamento contínuo e obrigatório. Uma edificação saudável é aquela que possui um plano eficiente e constante, onde a inspeção serve apenas para validar se o plano está sendo cumprido.
Nota do Especialista: O inspetor (engenheiro ou arquiteto) atua como um “clínico geral”. Se detectar algo complexo, como uma infiltração grave, deve recomendar um especialista (como um projetista de impermeabilização).
3. O “Manual do Proprietário” e o risco da negligência
A arquiteta Vanessa Pacola alerta para um erro comum: síndicos que negligenciam o Manual de Uso e Operação fornecido pela construtora.
3.1. Manutenções que os Síndicos Costumam Esquecer
Muitos gestores focam apenas nas manutenções obrigatórias por lei (extintores, limpeza de caixa d’água). No entanto, o manual do empreendimento exige:
- Tratamento de juntas de dilatação: A cada 2 anos.
- Pintura de fachada: A cada 3 anos.
- Impermeabilização: Checagem anual da camada de proteção.
- Limpeza de ralos e lajes: Periódica (para evitar o nascimento de vegetação que compromete a estrutura).
Atenção ao Prazo de Garantia: Negligenciar essas manutenções nos primeiros 5 anos pode fazer com que o condomínio perca o direito de processar a construtora por vícios, já que a causa do problema será a falta de manutenção prevista em manual.
4. Planejamento financeiro e valorização patrimonial
Uma inspeção bem executada também serve como ferramenta de planejamento estratégico e economia:
- Melhorias e Sustentabilidade: A inspeção pode detectar equipamentos no fim da vida útil (como boilers) e sugerir a troca por tecnologias modernas, como energia solar, zerando custos de energia em áreas comuns.
- Cota Condominial Realista: Segundo Claudio Silva, o erro de muitos condomínios é cobrar uma taxa baixa que não prevê a manutenção. O correto é definir a cota condominial de acordo com o plano de manutenção, evitando que a edificação se degrade e gere conflitos futuros.
O Melhor Remédio é a Engenharia
Para Paulo Werneck, a inspeção é a “dose inicial” para o síndico se respaldar. Ela oferece o norte necessário para traçar o Plano Diretor da Edificação, garantindo que o gestor atue baseado em dados técnicos e não em suposições.
Matéria publicada na edição 314 ago/25 da Revista Direcional Condomínios
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