Intimidades reveladas quando o privado invade o condomínio

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Do privado ao público: fetiche, pegação e vida bandida. Veja os casos a seguir  

“Reclamações de barulhos sexuais em condomínios não são novidade, mas o incomum, no caso que vou contar, foi o desfecho.  

Antonio Carlos Boucault, síndico profissional  

Um jovem casal havia se mudado para um edifício de poucas unidades, em um bairro nobre da capital paulista, e sua permanente lua de mel incomodava a vizinha do apartamento abaixo. Ela me ligava diuturnamente e dizia: ‘Antonio Carlos, que apetite é esse? Moro com minha mãe idosa, estamos constrangidas. Você precisa enviar uma notificação’. Aguardei um período, mas, como os arroubos não cessavam, certo dia assegurei à moradora que enviaria uma notificação por perturbação do sossego. Poucas horas depois, ela me ligou aflita: ‘O senhor já tomou a providência?’. ‘Ainda não’, respondi. Então, ela me solicitou que segurasse a notificação e explicou: ‘É que vamos entrar na retrogradação de Mercúrio, o que compromete a comunicação, e podemos ter erros de julgamento’. Agi conforme o solicitado. Curiosamente, a partir daquela ocasião, ela não fez mais reclamações.  

Se a intimidade alheia do casalzinho causava incômodo acústico, em outro condomínio lidei com um incômodo visual. Um casal francês, recém-chegado, se empolgava dentro da piscina, localizada entre as torres, posição que contribuía para a formação de plateia nas sacadas. Para piorar, a moça usava biquínis minúsculos, o que desagradava as mulheres casadas. Elas me procuraram para reclamar do comportamento considerado aviltante dos franceses, dizendo que ‘o casal iria às vias de fato, dentro d’água, se ninguém interviesse’. Fui falar com eles, mesmo sem dominar bem o idioma. Quando entenderam do que se tratava, não gostaram. O homem saiu da piscina gesticulando, o que fazia parte da nossa comunicação improvisada. Acontece que os outros banhistas, insuflados pelas esposas, pensaram que ele iria me agredir e o cercaram. Por um triz, a situação não terminou em briga. Depois disso, os franceses desistiram de frequentar a piscina.  

Outro fato atípico, de natureza diferente, aconteceu no final de uma tarde de domingo e deixou a todos apavorados, a começar pelo porteiro, que me ligou desesperado para informar que quatro viaturas do GARRA, unidade especial da Polícia Civil do Estado de São Paulo, haviam chegado ao condomínio. Por meio de alguns contatos com autoridades, confirmei que se tratava realmente de uma ação policial. Eles estavam em busca de um criminoso que residia no condomínio; forneceram-nos o nome, e colaboramos indicando duas unidades, uma em cada torre, onde havia moradores com aquele nome. Em uma delas, estava apenas a namorada, que ficou em choque diante da possibilidade de estar vivendo com um criminoso. Não estava. O verdadeiro criminoso morava na outra torre. Vivia com a esposa, parceira de crime, e dois filhos pequenos. Era um casal muito simpático e educado, mas que, para susto e surpresa geral, saiu do prédio algemado.”   


“Amo aprender e fiz vários cursos para exercer a sindicatura da melhor maneira possível. mas, às vezes, temos de improvisar.  

Raquel Aliunas, síndica profissional  

Algo assim foi necessário em um condomínio onde uma moradora recebia o amante quando o marido saía para trabalhar. O visitante até estacionava na vaga do casal. Certa manhã, pouco depois da chegada do amante, o porteiro avistou o carro do marido retornando ao condomínio e me ligou. Pedi, então, que travasse imediatamente o portão da garagem, e que somente o liberasse quando o outro veículo já estivesse prestes a deixar o prédio. E quanto à moradora? Era delicado falar de modo direto sobre o que se passava. Por isso, pedi ao funcionário que acionasse a central de alarme, assim interromperia quaisquer atividades no apartamento. Funcionou: as câmeras mostraram o amante se dirigindo às escadas de incêndio. Em nenhum momento minha intenção foi acobertar a traição, mas sim evitar uma tragédia, pois, se um deles estivesse armado, o pior poderia ter acontecido.  

Já em outra ocasião, um relacionamento acabou exposto, o que foi positivo, acredito. Eu me encontrava em visita ao condomínio quando fui informada de que moradoras tinham visto um homem nu. Ao apurar o que acontecia, deparei-me com dois visitantes: uma sessentona bonita, que viera regar as plantas da filha durante a viagem desta, e um jovem em estilo praiano, trajando apenas uma bermuda de cintura tão baixa que revelava parte do púbis. Solicitei que colocasse uma camiseta, mas ele passou a me questionar em voz alta. A senhora ralhou com ele, pois estava chamando a atenção dos vizinhos. Comuniquei a filha sobre o ocorrido durante sua ausência. Ela estranhou que a mãe, separada havia anos, tivesse alguém, mas investigou e descobriu que a senhora mantinha um namorico com o jovem, o que lhe despertou preocupação.  

Noutra feita, soube que, em um condomínio, uma moradora teria praticado sexo dentro de um carro, por volta das 20 horas, sem se importar com quem passasse pela garagem. Por meio das imagens das câmeras, constatei a veracidade do fato, e as medidas cabíveis foram tomadas. Reforçamos, ainda, em comunicado geral, a proibição de atos obscenos em local público. Esse fetiche, ao menos ali, a moradora não tornou a repetir.”  

Depoimentos concedidos a Isabel Ribeiro      

Matéria publicada na edição 319 fevereiro 2026 da Revista Direcional Condomínios

Autor

  • Jornalista Isabel Ribeiro

    Jornalista apaixonada desde sempre por revistas, por gente, pelas boas histórias, e, nos últimos anos, seduzida pelo instigante universo condominial.