A célebre frase usada em treinamentos da Disney pode inspirar o síndico a reforçar o compromisso com a gestão
A criança, ansiosa, mal segura o icônico sorvete com a cabeça do Mickey e o derruba no chão; o balão colorido da outra escapa rumo ao céu. As cenas são corriqueiras nos parques Disney, que assumem a responsabilidade de repor as perdas antes mesmo de os pequenos abrirem o berreiro — tristezas não combinam com a magia do entretenimento. O lema “A culpa não é minha, mas o problema é meu” é seguido à risca pela empresa temática em muitas outras situações e pode ser transposto para os condomínios.
Como representante do condomínio, o síndico segue um conjunto de leis e diretrizes que norteiam suas responsabilidades. “Brinco em sala de aula que o síndico não faz nada, mas que tudo é culpa dele”, diz Ricardo Karpat, referência na formação de síndicos profissionais. Paradoxos à parte, se algo desanda no condomínio e o síndico é o líder, de quem é a culpa? Antes de apontar dedos para funcionários ou pedir cabeças em bandejas, talvez seja válido refletir sobre a questão.
Uma exceção à regra, que não é culpa do síndico, envolve conflitos exclusivamente entre dois vizinhos, sendo uma das causas corriqueiras o incômodo decorrente do barulho de salto alto em piso de madeira no apartamento acima. “Nesse caso, não se trata de um problema de responsabilidade legal do síndico, mas ele pode mediar”, diz Ricardo. Se nada for feito, a situação tende a evoluir para retaliações ou agressões. “Em Alphaville, um vizinho incomodado com o barulho do salto matou a tiros a moradora do andar acima”, ilustra.
Transferindo Responsabilidades
Situação oposta ao lema Disney, e recorrente em condomínios, é querer transferir a culpa a gestões passadas. Um clássico é o síndico que, mesmo ao constatar que seu antecessor era permissivo com práticas em benefício dos moradores (como o zelador trocando torneiras nas unidades), não faz nada para mudar essa realidade, ainda que possa gerar problemas trabalhistas ao condomínio. E, nesse caso, não adianta pôr a culpa em outrem. “A partir do momento em que o síndico assumiu a gestão, a antiga conduta errada, se mantida, passa a ser um problema dele”, alerta Ricardo. Outra ocorrência habitual é a tentativa de transferir para a administradora a culpa por erros de previsão orçamentária, atas e convocações. “O síndico pode e deve usar os serviços da administradora, mas é ele quem tem de nortear e ler o que foi redigido. Sabemos que convocações ou atas mal feitas têm o poder de anular uma assembleia. E anulam”, reforça o educador.
Por outro lado, síndico que assume broncas demonstra maturidade e até estimula o cumprimento de protocolos. Luiz Barreto (o Ratinho), que administra um condomínio com 11 torres altas na Casa Verde, agiu rápido em episódio envolvendo uma moradora e uma porteira. A primeira, inconformada por não ter sido avisada no exato momento da entrega de sua encomenda, foi à guarita tirar satisfações com a segunda, que apenas seguirá procedimentos internos. “Essa moradora xingou a funcionária de nomes horríveis e foi multada. Moradores não podem agir de forma desrespeitosa com funcionários ou terceirizados”, enfatiza Ratinho.
Desequilíbrio do Todo
Gestora de condomínios, com MBA em Gestão de Pessoas e formação em Programação Neurolinguística, Laiz Miguel atua em uma administradora de grande porte e faz uma observação sagaz sobre o segmento condominial. “Condomínio não é o prédio; ele é um ecossistema. Pessoas, equipes, fornecedores e infraestrutura estão interligados. Quando algo dá errado, não adianta apontar para um único elo. O problema é sempre o desequilíbrio do todo. A função do síndico é cuidar desse ecossistema e garantir que os processos funcionem, que a comunicação flua e que cada um saiba exatamente qual é o seu papel. Quando esse sistema é bem desenhado, os problemas deixam de virar crises e passam a ser resolvidos antes mesmo de acontecerem, porque é possível antecipá-los.”
Se um problema é tratado de forma isolada, ele tende a se repetir. “É preciso mudar essa dinâmica, buscando entender e resolver a raiz do problema. A pergunta adequada não é de quem foi a culpa, mas onde o processo falhou. Quando ficamos presos aos culpados, permanecemos presos à situação. E, quando fazemos parte do problema, não enxergamos a solução. Sugiro observar o problema de fora. Fica muito mais fácil encontrar a solução e redesenhar o processo para que ele não ocorra novamente”, arremata.

Agradecimento aos entrevistados
Da esq. para a dir., Ricardo Karpat, Laiz Miguel e Luiz Barreto (Ratinho)
Matéria publicada na edição 319 fevereiro 2026 da Revista Direcional Condomínios
Não reproduza o conteúdo sem autorização do Grupo Direcional. Este site está protegido pela Lei de Direitos Autorais. (Lei 9610 de 19/02/1998), sua reprodução total ou parcial é proibida nos termos da Lei.