Nos bastidores do condomínio: histórias que parecem ficção, mas aconteceram de verdade

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Veja histórias curiosas, bizarras e inesperadas em condomínios 

  

“Sabe aquela história de que o barato pode sair caro? Pois tenho um exemplo real a que sempre recorro em determinadas deliberações em assembleias.

Luis Fabiano Leister, síndico profissional   


Há muitos anos, assumi a implantação de um condomínio de classe média alta, com poucas unidades, no Morumbi. Ainda na Assembleia Geral de Instalação, notei um casal que destoava daquele núcleo, como se tivesse uma visão diferente da dos outros moradores. O problema é que eles pareciam não ter levado em conta as implicações de uma escolha por um imóvel de padrão mais elevado. Um edifício desse perfil requer, por exemplo, um enxoval condizente, o que exige investimento. Na concepção deles, tudo era caro, o que acabou influenciando outros moradores a votarem por itens de qualidade aquém do esperado.   

O comportamento do casal se repetiu em outras reuniões. Eles se manifestavam o tempo todo, sempre a favor de produtos e serviços mais baratos. Os demais acatavam, talvez porque exista um fenômeno comum em assembleias: chega um momento em que quem grita mais leva. Afinal, o outro se cansa e cede. Pois, em mais um desses encontros, lá estavam os dois no salão de festas, sentadinhos, apoiados um no outro, participando ativamente até que as cadeiras plásticas quebraram e eles foram parar no chão. Nem preciso dizer que havia opções de melhor qualidade quando o condomínio escolheu aquelas cadeiras, não é? Mas… eram mais caras!   

Já presenciei ou acompanhei muitas situações pitorescas em condomínios. Em residenciais de classe média na zona leste, dois casos me surpreenderam. O primeiro envolveu uma jovem proprietária que chegou ao condomínio por volta das seis horas da manhã, foi para a piscina, tirou completamente a roupa e começou a nadar. Assim que o zelador a viu, pediu que se vestisse, e ela não se opôs. Mas, quando recebeu a multa, negou que estivesse nadando pelada. Estava, segundo ela, ‘com biquíni cor de pele’.   

O segundo caso foi mais sério, envolvendo um homem na faixa dos 30 anos, que morava sozinho em um imóvel comprado pela família. Até então, era um rapaz na dele, mas passou a furtar o mercadinho, e a mãe pagou, sem pestanejar, uma conta de cinco mil reais. Depois soubemos que ele não tinha sequer energia elétrica e carregava o celular nas tomadas do prédio. Também era acumulador de bugigangas.   

Em dado momento, ele nos enviou uma carta de três páginas, em que relatava estar sendo perseguido pela máfia chinesa a mando do Grupo Silvio Santos. Dias depois, desceu ao parquinho com uma espada samurai para fazer performances para as crianças. Esse foi o momento-limite. Embora ele fosse calmo e não estivesse muito perto delas, aquela situação jamais deveria ter ocorrido. A partir daí, nos mobilizamos para que a família e entidades públicas propiciassem o tratamento de que ele precisava. Após um período internado, recebeu alta, retornou ao condomínio e não tivemos mais intercorrências.”   


“Quando falamos em comércio dentro de residenciais, pensamos no mercadinho, no salão de beleza, mas, às vezes, a transação comercial é de outra natureza… 

Rafael Procaci, síndico profissional   


Em anos de sindicatura, jamais vi nada tão bizarro quanto o que encontrei numa área de caixão perdido, que é um espaço vazio que atende às especificidades de determinada construção – neste caso, o recurso compensara diferenças de nível do terreno do empreendimento. O prédio em si é relativamente novo, bem equipado, localizado em um bairro valorizado da região central de São Paulo. Tem 120 unidades compactas, habitadas por famílias convencionais e profissionais do sexo – algumas garotas, inclusive, trabalham em uma casa de luxo na vizinhança. Já outras garotas e garotos de programa, alguns deles ao menos, vim a saber que atendiam no ‘quintal de casa’, em um espaço arquitetado pelo zelador.   

Quando assumi a gestão, o zelador, terceirizado, já trabalhava no prédio. Eficiente, o melhor que eu já tive. Tempos depois, recebi uma denúncia informal de que ele tinha um local secreto, usado para prostituição. Eu sabia que, na área do caixão perdido, havia uma portinha, um quartinho, e que ele guardava ali alguns poucos objetos. Zeladores ganham muitas coisas em condomínios. Mas resolvi inspecionar melhor o local durante uma folga dele. Para além de uma ‘parede de fachada’, havia uma casa montada com divisórias de drywall. Tinha quarto, sala, cozinha, mobílias e infinitos objetos de uso sexual, entre eles vibradores e bonecas infláveis. Foram necessários quatro dias para desmontar tudo. Passei o caso à terceirizada, bem como as despesas com a desocupação do local. Até hoje não sei se ele apenas alugava o ambiente ou se intermediava os encontros. Nunca mais o vimos.   

Em outro prédio, este nas imediações da Avenida Paulista, com imóveis de 200 metros quadrados, um casal deu um jeito de faturar algum dinheiro, alugando uma unidade para promover festas pagas que iam até três ou quatro horas da manhã. Os locatários pagavam 20 mil reais de aluguel, mais seis mil reais de condomínio, e promoviam eventos para grupos de 50 pessoas. A polícia foi acionada várias vezes, e instaurou-se um inquérito. O casal foi expulso do condomínio. Mas, para desassossego dos moradores, essa não foi a única vez que tentaram lucrar no mesmo edifício. Há alguns anos, um estrangeiro comprou três apartamentos e fez reformas para desmembrá-los em unidades menores e potencializar os ganhos com aluguel. O condomínio não achou o negócio nada interessante, e o proprietário responde na Justiça.”   

Depoimentos concedidos a Isabel Ribeiro       

Matéria publicada na Edição 326 – setembro/2026 da Revista Direcional Condomínios

Autor

  • Jornalista Isabel Ribeiro

    Jornalista apaixonada desde sempre por revistas, por gente, pelas boas histórias, e, nos últimos anos, seduzida pelo instigante universo condominial.