Os desafios da gestão de condomínios-clube movem o síndico Luiz Barreto, O Ratinho

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Ratinho administra grandes condomínios; um deles, na zona norte, com mais de 40 anos, possui 836 unidades

Se alguém me chamar de Luiz, às vezes nem reparo que é comigo. Sou mais conhecido como Ratinho. O que poderia ser um complicador para um síndico, que lida com o dinheiro dos outros, mas não foi o que aconteceu, graças à minha postura direta, íntegra e transparente. O meu apelido nasceu quando eu tinha 10 anos de idade e, após a escola, vendia pastel em uma barraca em frente à casa dos meus pais, no Tatuapé. Eu saía da escola e ia ajudar o seu Jorge. No fim do dia, recebia alguns cruzados e um pastel. O meu preferido sempre foi o de queijo. Os amigos da rua começaram a brincar que eu só gostava de queijo e o ‘Ratinho’ acabou ficando.   

Desde cedo, quis ganhar os meus trocados, não trabalhava por necessidade. Estudei em colégio de freiras e cresci vendo meu pai empreender. Ele tinha fábrica de espelhos e de coberturas para garagens. Adorava ajudá-lo. Com 15 anos, já consertava os caminhões da empresa. Sou autodidata em mecânica e eletrônica. Aos 8 anos, ganhei um caminhão de brinquedo. Uma hora depois, ele estava desmontado. Minha mãe ficou brava, mas eu precisava descobrir como funcionava o motor a pilhas. Acho que foi aí que nasceu o síndico operacional que me tornei (rs!). Outra contribuição do passado à sindicatura é a desenvoltura com pessoas, lapidada no trabalho.   

Quando garoto, fui vendedor no Romão Calçados, no Tatuapé. Depois, trabalhei com meu irmão em uma empresa de comunicação visual. E, na sequência, vieram as representações comerciais em editoras, como a Moderna. O curioso foi que me apresentei no processo seletivo do jeito que eu sou, da mesma forma que faço nos condomínios: simples, trajando bermuda e pedindo apenas uma oportunidade de mostrar meu valor. Pois fiquei nove anos nessa empresa e fui três vezes eleito o melhor vendedor da editora.   

Ao deixar as editoras, abri uma loja de modelismo, uma antiga paixão, pertinho de casa, que hoje funciona no e-commerce. Estava enfrentando a síndrome do pânico e o trânsito da cidade era gatilho para crises. Foram anos de tratamento até aprender a lidar com a doença. Nessa fase, me conectei mais ao Porto Seguro, um local repleto de verde na zona norte, onde vivo há 20 anos com minha esposa Adriana e nosso filho, Lucas.   

Esse condomínio foi implantado em um terreno de 44.233 m². Ele é peculiar. Conta com 11 torres altas, tem 836 unidades e infraestrutura de lazer completa. O mais engraçado é que já foi concebido como condomínio- clube em 1985! Na inauguração, vieram até ‘Os Trapalhões’. O menos engraçado é que, ao longo das décadas, pouca manutenção ocorreu e os problemas cresceram tal e qual as raízes das árvores, avançando no piso intertravado das calçadas internas e rasgando tubulações. E, no meio do percurso, tivemos um rombo financeiro gigantesco, o que atrasou as manutenções.   

Até 2018, eu era um morador comum, que passeava com o cachorro à noite pelas alamedas e papeava com os vizinhos. Aí tudo mudou. A convite da subsíndica da minha torre, naquele ano eu me tornei conselheiro porque ela requisitou minha ajuda para cuidar de assuntos de manutenção e orçamento. No Porto Seguro, para cada torre há um subsíndico e conselheiros informais. Já na administração geral, existem o síndico e o conselho formal. Àquela altura, o condomínio se reerguia de um golpe com mudanças. Havíamos substituído a autogestão pelo serviço de uma administradora de renome, a GK; passáramos por auditoria e contávamos com um novo síndico orgânico, muito comprometido em reorganizar a questão financeira.   

Pelo meu bom desempenho e trato com funcionários, esse síndico me convidou para ser conselheiro geral. Isso aconteceu durante a pandemia, quando não parei um minuto, tanto no meu e-commerce quanto na lida condominial. Em 2023, o síndico mudou-se do Porto Seguro, mas antes me indicou à sucessão. Eu não conhecia profundamente a gestão condominial, mas conhecia pessoas, manutenção, operação e, principalmente, tinha vontade de trabalhar. Recebi um voto de confiança e devia honrar a escolha dos moradores. Fiz cursos, me especializei e, desde então, meu trabalho tem sido colocar a casa em ordem com a retaguarda financeira que a gestão anterior deixou para assuntos de zeladoria.   

Dessa forma, conseguimos, por exemplo, modernizar todo o sistema de controle de acesso, investimos em tecnologia e processos. Estamos revitalizando as fachadas e já recuperamos o playground. Transformamos uma das quadras em uma arena de beach tennis, trouxemos um mercado de bandeira conhecida para o condomínio, além de açougue e loja pet autônomos. Mas acho importante destacar que procuro fazer uma gestão pensando no lado de quem é assalariado. A oposição às vezes me cobra por não fazer o que ela acha que deve ser feito, mas eu não posso simplesmente jogar rateios simultâneos nas costas do morador. Com controle administrativo, temos uma inadimplência baixa.   

Eu me preocupo com a coletividade. O Porto Seguro tem potencial para reunir amigos e familiares. Por isso, outra marca da minha gestão são as festas, realizadas com ajuda do comitê de eventos. A nossa Festa Junina tem seis dias de shows. O nosso Halloween tem monstros de 2,20 metros de altura. Crianças e idosos adoram! E os moradores que consomem uma bebida ou outra não precisam se expor a riscos ao volante. Eles encontram diversão onde moram. Se excederem na dose, estão a um passo do elevador.   

Gerir uma ‘cidade’ é desafiador? É, e eu gosto disso. Na minha época de editoras, sempre pedia para cuidar de situações desafiadoras porque é nelas que você deixa a sua marca. Em condomínios é a mesma coisa. Sou grato porque recebi incentivos de pessoas do bem, experientes no setor condominial, para me estabelecer como síndico. Hoje, em parceria com uma empresa de sindicatura, atuo em mais três condomínios-clubes, um deles com cinco torres. Todos eles, claro, com muita coisa por fazer. Meu prazer é chegar onde existe desorganização e ajudar a construir algo melhor.   

Sou um síndico de bermuda, que sobe escada, conversa com funcionários. Acredito que podemos criar um ambiente mais seguro e mais humano, apesar dos grupos de WhatsApp contrários à gestão. Outro dia um morador espalhou ter visto um rato grande quando se tratava de um saruê, espécie comum nas áreas verdes do condomínio. A ideia era insinuar descuido da zeladoria do Porto Seguro, então, será que vale explicar a ele que um marsupial não é roedor? Quando os moradores me estressam com bobagens, recorro à minha válvula de escape: me isolo à noite, por algumas horas, para consertar coisas quebradas. Calibro a energia e me sinto pronto para o dia seguinte.”   

Luiz Barreto, o ‘Ratinho’, em depoimento concedido a Isabel Ribeiro      

Matéria publicada na edição 324 julho 2026 da Revista Direcional Condomínios

Autor

  • Jornalista Isabel Ribeiro

    Jornalista apaixonada desde sempre por revistas, por gente, pelas boas histórias, e, nos últimos anos, seduzida pelo instigante universo condominial.