Promover a aproximação entre as pessoas, incentivar ações voltadas à saúde mental e orientar colaboradores a reportarem mudanças de hábitos e comportamento dos moradores são medidas que visam tornar o condomínio mais acolhedor e seguro para quem vivencia pensamentos suicidas
Márcia Pereira chegou bem-disposta a um residencial de Guarulhos, naquela manhã de sábado, dois anos atrás. Síndica profissional, ela estava particularmente satisfeita porque havia conseguido um bom quórum para o treinamento da brigada de incêndio. Encontrou- se com o grupo de voluntários na quadra. Mal o treinamento havia começado, moradores de uma das torres passaram a gritar das janelas para alguém na torre da frente. Uma funcionária do condomínio chegou correndo e explicou à síndica o que se passava: havia um morador sentado no parapeito da área de serviço. Não houve tempo para mais nada.
Apesar dos fortes apelos para demovê-lo da ideia, o homem, de 62 anos, que morava sozinho, se atirou. O condomínio mergulhou numa mistura de consternação e curiosidade – teve até vizinho indo para a janela de outro vizinho, querendo ver e registrar a tragédia por melhor ângulo. “Disparei uma mensagem pedindo respeito. A fatalidade tem família”, diz Márcia. A filha, que vivia em outra cidade, foi chamada, assim como as autoridades. “Acionamos os serviços de emergência e preservamos o local até a chegada da polícia. Durante os trâmites, fui tomada por uma sensação de inutilidade. Eu estava ali quando tudo aconteceu, mas não pude fazer nada para salvar aquela pessoa”, descreve.
A partir desse episódio, Márcia reforçou um pedido que já fazia aos colaboradores dos condomínios que administra em Guarulhos e São Paulo: que, ao perceberem qualquer coisa fora da rotina-padrão, lhe reportassem. “Funcionários, principalmente os de portaria, sabem muito sobre os moradores. Eles podem nos ajudar a identificar mudanças de comportamento, até mesmo pela voz das pessoas”, aponta. E acrescenta: “E eles realmente gostam de contribuir, mas não gostam que os colegas saibam que estão reportando suas observações à gestão. Por isso, o síndico precisa disponibilizar um local ou canal para que possam conversar de forma discreta”.
Após a tragédia, Márcia passou a valorizar ainda mais os eventos tradicionais que realiza nos condomínios, como o Natal, pois aproximam pessoas, abrindo caminhos que podem fazer a diferença em dias cinzentos. Também se envolveu em ações diretas. Em um residencial com 196 casas em Guarulhos, onde já havia ocorrido uma tentativa de suicídio, a gestora promoveu em 2025, no Setembro Amarelo campanha de conscientização da prevenção ao suicídio —, uma palestra sobre depressão com uma terapeuta em saúde emocional. Nesse mesmo local, abriu as portas para arteterapia. “Os alunos de uma faculdade próxima se reuniam semanalmente com moradores de diferentes idades no salão de festas para trabalhar as emoções por meio da criação artística. As pessoas amaram participar, e teve ainda o benefício da interação entre moradores. Duas senhorinhas de casas distantes se tornaram inseparáveis”, observa.
Gestão de pessoas
Síndica profissional, advogada condominialista e educadora condominial, Anna Carolina Levy Brum endossa a importância de gestões que se preocupam com os seres humanos e suas dores. “Quando eu comecei na sindicatura, 19 anos atrás, o trabalho era estrutural. Era o jardim que tinha que estar bonito, o prédio pintado, o vazamento consertado. Hoje não! Oitenta por cento do meu trabalho é gerir pessoas. Primeiro, porque agora temos muito mais empresas especializadas em todos os serviços, o que reduz meus problemas na área estrutural. E, segundo, porque as pessoas estão com uma demanda emocional maior”, explica. “Antigamente, a internet não era tão aberta, não existia WhatsApp, que, dependendo do quanto se reclama no grupo, pode ser um estressor para a própria coletividade. Também não havia pessoas se comparando aos estilos de vida exibidos no Instagram, o que pode gerar ansiedade e depressão. São outros tempos”, complementa.
Carolina acrescenta, ainda, que a pandemia contribuiu para o adoecimento emocional e mental de muitos e que os impactos continuam presentes. “Sabe aquela caixinha que todo mundo tem dentro de si e uma hora transborda? É assim que eu vejo. Antes da pandemia, eu não tive um décimo dos casos de suicídio em condomínios que tive de 2020 para cá”, compara. No ano passado, foram dois episódios, um deles envolvendo uma senhora de 71 anos, que deixou sua cidade para morar com o filho na Grande São Paulo, após perder seus bens. “Às vezes, a família prefere silenciar sobre a causa e não nos envolvemos. Porém, quando decidem se abrir, percebo quase sempre que existe uma questão financeira por detrás”, comenta. Há exceções, como a de um adolescente com pai muito rígido, que tirou a própria vida após uma nota baixa na escola. “Esse caso ocorreu há anos, mas foi o que mais me marcou.”
Em matéria de suicídio, o período mais desafiador para Carolina foi durante a crise sanitária, quando administrava 36 condomínios, de edificações de interesse social às de alto e médio padrão. Logo nos primeiros quatro meses, lidou com mais de dez episódios de suicídio, todos em prédios voltados a um público de maior renda. A maioria foi cometida por homens que perderam o emprego ou enfrentavam dificuldades nos negócios. Ela teve, então, a ideia de fazer uma parceria com uma psicóloga para dar suporte online e disponibilizou o contato nos canais oficiais de comunicação. “Eu não podia ser omissa frente a tudo o que estava acontecendo. E havia, ainda, os funcionários dos condomínios, abalados com essas mortes e com a pandemia, que necessitavam de apoio”, justifica.
O movimento iniciado na pandemia se solidificou. A parceria da síndica com a psicóloga segue forte, e Anna, que pratica escuta ativa, começou a ser mais procurada por moradores com demandas emocionais. “Muitas vezes quem está com um problema acredita que ele está estampado, que todo mundo sabe, e por isso fica envergonhado de ser visto falando comigo na administração. Então, costumo propor uma caminhada pelo condomínio, em que apontamos para o jardim, para o salão de festas, como se estivéssemos tratando de qualquer outro assunto, menos do interesse da pessoa em psicoterapia. Assim, as pessoas se sentem mais seguras para falar.” Os zeladores, braços esquerdos e direitos da gestão, nas palavras de Anna, a ajudam a identificar situações de risco para que o condomínio possa oferecer ajuda.
Anna afirma que nem todos são sensíveis ao tema suicídio. A tragédia pode deixar vestígios no piso da área comum ou em uma parede, implicando reparos e repinturas. “Não acho adequado repassar os custos desses serviços às famílias enlutadas. Quando há condições financeiras, prefiro usar o dinheiro do condomínio, mas sempre tem uma pessoa ou outra que não concorda, apesar do caixa saudável. Muitas vezes, para evitar atritos, eu verifico com um prestador de serviço se ele libera uma lata de tinta. Ou, em condomínio com poucos recursos, tento negociar o parcelamento de um piso emborrachado para o parquinho em mais vezes que o habitual. Temos de poder contar com prestadores-parceiros não só nas grandes obras, mas também em momentos delicados”, finaliza.
COMO AGIR APÓS A OCORRÊNCIA
Em uma ocorrência de suicídio, o síndico deve agir com diligência, mas sem assumir funções que cabem às autoridades e aos profissionais especializados, instrui Vander Andrade. Veja outras orientações do educador e advogado condominialista.
1. QUEM ACIONAR: Se houver possibilidade de pessoa estar viva, acione imediatamente o SAMU (192). Confirmado ou fortemente suspeito o óbito, chame a Polícia Militar (190) e preserve o local para a atuação das autoridades e da perícia.
2. NÃO MEXA NA CENA: Não toque, remova ou limpe objetos. Funcionários não devem fotografar ou filmar o local, nem compartilhar imagens ou informações por aplicativos de mensagens. A causa da morte também não deve ser presumida antes da apuração oficial.
3. PRESERVE AS IMAGENS: As gravações de CFTV podem ser importantes para a investigação. Devem ser preservadas para eventual solicitação policial e jamais divulgadas por iniciativa do condomínio.
4. REGISTRE, SEM ESPECULAR: O síndico deve documentar objetivamente os acontecimentos, sem diagnósticos, comentários sobre a vida pessoal da vítima ou outras conjecturas.
5. CUIDE DE QUEM FOI EXPOSTO: Funcionários que encontraram a vítima, presenciaram o ocorrido ou participaram do atendimento podem precisar de suporte profissional. A nova redação da NR-1, vigente desde 26 de maio de 2026, contempla os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho.
6. REVISE OS PROTOCOLOS: Depois da emergência, é importante avaliar os procedimentos do condomínio para atendimento médico, isolamento de áreas, acionamento das autoridades, preservação de cenas e comunicação com moradores.

Agradecimento aos entrevistados
Márcia Pereira, Anna Carolina Levy Brum (centro) e Vander Andrade
Matéria publicada na Edição 326 – setembro/2026 da Revista Direcional Condomínios
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