Administrar um condomínio é, antes de tudo, administrar interesses coletivos. E talvez uma das partes mais difíceis desse trabalho não esteja nos orçamentos, nas obras, nos contratos ou nas manutenções. Está nas pessoas.
Mais especificamente, na dificuldade que algumas pessoas têm de separar participação de protagonismo.
Conselhos, comissões e assembleias são fundamentais para uma boa gestão. Quanto mais moradores participam, opinam, questionam e contribuem, melhor. O problema começa quando a discussão deixa de ser sobre o que é melhor para o condomínio e passa a ser sobre quem teve a ideia, quem decidiu, quem foi consultado ou quem quer ter a última palavra.
É nesse momento que o ego começa a custar caro.
Uma solução de segurança que poderia ser implantada rapidamente entra em sucessivas rodadas de discussão. Uma manutenção necessária é adiada porque alguém prefere outra empresa, outro modelo ou simplesmente gostaria de ter participado da decisão desde o início. Um projeto já estudado tecnicamente volta à estaca zero porque surge a necessidade de reavaliar tudo.
Boa gestão não significa ausência de debate. Muito pelo contrário. Decisões relevantes precisam de informação, orçamento, análise técnica e transparência. Mas também precisam de um momento em que o debate termina e a execução começa.
Nem toda decisão necessita carregar a autoria de alguém. Nem toda sugestão precisa prevalecer. Nem toda divergência significa que alguém está errado. E, principalmente, participar de uma administração coletiva exige saber aceitar que, algumas vezes, a decisão final será diferente daquela que cada um individualmente considera ideal.
Esse talvez seja um dos maiores exercícios da vida em condomínio: entender que o melhor para o coletivo nem sempre coincide exatamente com a preferência individual.
Na prática, a individualização excessiva das decisões produz um efeito perigoso: a paralisia.
Queremos mais segurança, mas discutimos indefinidamente qual sistema instalar. Queremos melhorar as áreas comuns, mas não conseguimos avançar porque cada pessoa imagina uma solução diferente. Queremos reduzir custos, mas rejeitamos mudanças porque elas alteram hábitos já estabelecidos. Queremos uma gestão eficiente, mas exigimos que cada assunto seja debatido tantas vezes que qualquer processo se torna lento e desgastante.
E então surge uma contradição bastante comum: reclama-se da demora de uma gestão que, muitas vezes, está demorando justamente porque não consegue obter espaço para executar. Isso significa definir responsabilidades, estabelecer prioridades, ouvir quem precisa ser ouvido e, depois, permitir que os responsáveis trabalhem.
O conselho aconselha e fiscaliza. As comissões estudam e colaboram. A assembleia delibera sobre aquilo que lhe compete. A administração executa. Quando todos tentam ocupar simultaneamente todas essas funções, o resultado não é mais democracia. É confusão.
Em uma gestão coletiva, ceder muitas vezes significa apenas compreender que existem outros pontos de vista igualmente legítimos e que nenhuma administração conseguirá atender integralmente às expectativas individuais de centenas de moradores.
Às vezes, será necessário aprovar a segunda melhor solução porque ela é financeiramente viável. Em outras situações, será necessário executar algo com rapidez porque segurança e manutenção não podem esperar meses por consenso absoluto. E haverá momentos em que simplesmente será preciso confiar no trabalho técnico de quem foi escolhido para administrar.
O condomínio amadurece quando as pessoas deixam de perguntar “por que não fizeram do meu jeito?” e começam a perguntar “essa decisão é boa para a maioria?” Essa mudança parece pequena, mas transforma completamente uma gestão.
Porque bons condomínios não são construídos por uma única pessoa, por um síndico, por um conselho ou por uma comissão. São construídos quando diferentes pessoas conseguem trabalhar na mesma direção, mesmo sem concordar com tudo.
Participar é importante. Fiscalizar é necessário. Discordar é saudável. Mas saber avançar também é.
No fim, talvez a pergunta mais importante antes de qualquer discussão condominial seja muito simples: estamos tentando resolver o problema ou apenas provar quem está certo?
Quando a resposta é o coletivo, as decisões ficam mais rápidas, as relações ficam mais saudáveis e o condomínio finalmente consegue seguir em frente.
Não reproduza o conteúdo sem autorização do Grupo Direcional. Este site está protegido pela Lei de Direitos Autorais. (Lei 9610 de 19/02/1998), sua reprodução total ou parcial é proibida nos termos da Lei.