Neste mês, que celebra a força feminina, síndicas relatam discriminação de gênero nos bastidores condominiais
O segmento condominial evoluiu e a presença feminina na sindicatura cresce de forma evidente. Ainda assim, mulheres à frente de condomínios seguem enfrentando preconceito — muitas vezes velado, outras nem tanto. Crenças simplistas sobre papéis de gênero geram situações constrangedoras e desnecessárias. “Existe preconceito não só por parte dos condôminos, mas também de colaboradores e prestadores de serviços, especialmente em áreas técnicas”, afirma a síndica profissional Amanda Accioli.
Com mais de 20 anos de atuação no setor, sendo os seis últimos na sindicatura, Amanda avalia que a discriminação hoje é mais sutil, manifestando- se em atitudes que questionam a autoridade e o conhecimento feminino. “Por vir do Direito, percebo um pouquinho mais de respeito com a minha gestão, mas, infelizmente, essa não é a realidade de todas as síndicas”, diz.
Ela relembra situações marcantes do início da carreira. Em uma delas, ao chamar um funcionário para uma conversa, ouviu: “Mulher não manda em mim; comigo, só na peixeira”, enquanto ele arremessava objetos em sua direção. Em outro caso, ao assumir um condomínio ao lado de uma experiente colega, enfrentou resistência do conselho. “Não estavam preparados para um comando feminino e tentavam desacreditar nossas falas”, conta.
Amanda ressalta que competência não depende de gênero, mas destaca que, em alguns contextos, o perfil feminino pode ser mais adequado. “No condomínio dos conselheiros resistentes, por exemplo, havia um público majoritariamente idoso, que demandava uma gestão mais acolhedora, mas optamos por sair diante da falta de abertura”, explica.
Na relação com prestadores de serviço, o desafio também é frequente. “Há uma suposição de que somos mais fáceis de enganar. Alguns profissionais tentam nos diminuir tecnicamente”, afirma. Para lidar com isso, ela aposta em preparo e cautela: “Estudo previamente, questiono, registro explicações no gravador do celular e, ao mesmo tempo, confiro as informações com apoio da inteligência artificial. É duro o que enfrentamos”.
Machismo Interiorizado
Compreender a dinâmica cultural e estrutural das relações sociais pode ser decisivo para manter o equilíbrio diante de situações de preconceito. É o que afirma a síndica profissional Ligia Ramos, com 26 anos de experiência na área. “Alguns prestadores de serviço que se comportam de forma machista vêm de locais onde o patriarcado ainda é forte. Eles carregam visões distorcidas sobre o papel da mulher em posições de liderança e acabam reproduzindo isso nos condomínios”, avalia. “Eu não me indigno. Tenho pena, porque acredito que estamos aqui para evoluir, mas essas pessoas ainda não amadureceram. Não adianta ficar brava, isso só abala a minha paz”.
Ela menciona a influência do machismo estrutural e do inconsciente coletivo no segmento, que molda comportamentos independentemente de experiências individuais. “Por exemplo: já perdi concorrência em condomínio pelo fato de ser mulher, e não foi culpa de ninguém. Isso é o mais grave. Às vezes, o inconsciente coletivo conduz as decisões. É o chamado fenômeno de bando, ao qual todos estamos sujeitos. Em situações de escolha, como para realizar uma cirurgia ou pilotar um avião, na ausência de reflexão, a tendência ainda é optar pelo homem”.
A síndica também vivenciou situações de machismo por parte de administradoras. “Chegaram a tomar decisões que competiam a mim. Quando há um comando machista não tem espaço para diálogo. E isso não vem apenas de homens, mas também de mulheres com postura impositiva”, observa.
Para Lígia, a presença da mulher na sindicatura traz contribuições importantes. A primeira é servir de referência para novas gerações, especialmente jovens condôminas, ajudando a normalizar a liderança feminina. A segunda é o estilo de gestão. “Em geral, mulheres são mais empáticas e menos impositivas. Priorizam o diálogo, a conciliação e a mediação. Isso não significa deixar de agir. Eu aplico advertências e multas quando necessário, ou expulso, mas só depois de esgotar as tentativas de reintegração ao convívio coletivo”, conclui.
Ela admite que demorou a reconhecer a discriminação nos condomínios. “Nos conselhos, percebia grande dificuldade por parte dos homens em compreender as questões que eu apresentava. Cheguei a pensar, inclusive, que o nível de compreensão de muitos deles fosse limitado. Depois, percebi que se tratava de um comportamento padrão. Quando uma criança vem falar sobre um assunto importante fora da sua faixa etária, tendemos a ignorá-la; afinal, o que ela sabe sobre isso? É exatamente assim: há um certo desdém em relação ao que é dito por nós, síndicas. Aprendi a me posicionar com diplomacia e até com uma fina ironia. Hoje, todos me escutam.”
Ameaça e Palavrões
Augusta Cotrim já enfrentou episódios de intimidação explícita na sindicatura profissional. Em um deles, um condômino da oposição retirou editais de convocação para a assembleia de reeleição e, sob orientação jurídica, foi multado. A síndica estava no pátio quando ele se aproximou, aos gritos, fazendo ameaças e proferindo ofensas de cunho sexista. “Ele me xingou quatro vezes, foi horrível. O zelador e o manutencista intervieram”, relata.
A síndica ingressou com ação por danos morais. Em primeira instância, a indenização foi fixada em R$ 500, mas ela recusou: queria uma retratação pública. Em segunda instância, porém, a decisão foi revertida, e Augusta foi condenada a arcar com custas e honorários. Segundo a magistrada, a reação do condômino teria sido motivada pela multa. “Ela alegou que, na profissão que exerço, esse tipo de situação é previsível”, afirma. “Isso foi em 2020. Muita coisa mudou no Judiciário, mas me pergunto se decisões assim não contribuíram para o cenário extremo de violência contra a mulher que vemos hoje.”
Em outro condomínio, relata ter enfrentado grosserias do ex-síndico e ex-subsíndico. “São dois machistas. Durante 15 anos, tempo em que administraram o prédio, as moradoras não podiam se manifestar sem serem ofendidas. Um deles tentou me intimidar; tive até sangramento ocular por estresse. A esposa dele soube, ficou a meu favor e o afastou das questões do condomínio”, conta. “Pessoas que agem assim não buscam evolução.”
Apesar das dificuldades, Augusta não pensa em desistir da sindicatura. “Existem obstáculos nos condomínios, você pode deixar um ou outro prédio, mas não todos eles. Procuro compreender a coletividade, sem abrir mão das minhas atribuições.” Para manter o equilíbrio, recorre à espiritualidade. “Isso me conforta e inspira”, conclui.
Síndicas expõem desafios da liderança feminina

Fátima Souza, síndica profissional
“O machismo na sindicatura é real. Na pandemia, emiti um comunicado reforçando o uso de máscara para proteger a todos. Fui ameaçada por um morador, que disse que ‘ia meter a mão na minha cara’ se eu não retirasse o comunicado. Fiz um boletim de ocorrência. Anos depois, ao assumir outro condomínio, encontrei erros trabalhistas graves. Coloquei tudo dentro da lei, mas, incrédula, ouvi que eu estava fazendo tudo errado. Machistas não aceitam que uma mulher arrume a bagunça deixada por gestões masculinas. Segui em frente. Fazer o certo exige coragem. E competência não tem gênero.”

Luiza Paulino, síndica profissional
“O preconceito aparece quando um prestador ignora prazos, um conselheiro testa limites, um morador questiona a capacidade técnica antes mesmo de avaliar o resultado. O desafio é diário. Em uma assembleia, um morador afirmou: ‘Vamos ver se a senhora dá conta dessa obra.’ Minha resposta foi simples: ‘Obra se conduz com escopo técnico, cotações, cronograma financeiro, análise contratual e respaldo legal.’ A obra foi entregue dentro do prazo, com controle e acompanhamento documentados. Na sindicatura profissional, a autoridade não se impõe, demonstra-se na prática.”

Ana Paula Queiróz, síndica profissional
“Durante uma reunião sobre melhorias estruturais e elétricas no salão de festas, enquanto eu explicava o projeto, um conselheiro sugeriu que esperássemos a participação do zelador, para que fosse ele a falar. Esclareci que possuir conhecimento de dados técnicos e transmitir informações independe de gênero. Em outra ocasião, funcionários riram quando relatei ruído no portão; depois, confirmou-se problema no motor, evidenciando o preconceito. Disse a eles: nós, mulheres, desenvolvemos audição aguçada quando o primeiro filho nasce. Somos ligadas em tudo.”

Vera Rogato, síndica profissional e advogada
“A discriminação de gênero no setor reflete as estruturas de poder tradicionais do mercado imobiliário e da construção civil. Embora ocupemos cada vez mais espaços, como síndicas profissionais, administradoras, advogadas e gestoras, enfrentamos preconceito. Os ataques de condôminos são mais acirrados em gestões femininas. Eu tenho o exemplo de um conselheiro que nunca me olha nos olhos quando fala comigo, diferentemente de como trata os homens da minha equipe. Muito já se conquistou, mas ainda temos um longo caminho pela frente, inclusive para equiparar ganhos.”

Grace Rosa, síndica profissional
“A sindicatura traz para a mulher desafios que não deveriam mais existir. Antes, eu me incomodava bastante com questionamentos sobre minha capacidade técnica, tentativas de descredibilizar decisões ou aquela sensação de que o tempo todo precisava provar algo mais em comparação ao sexo masculino. Com o tempo, entendi que o preconceito fala mais sobre quem o pratica do que sobre quem o recebe. Isso não pode abalar nossa confiança. Pelo contrário, é justamente a postura profissional, o conhecimento, a ética e a consistência no trabalho que desmontam qualquer tentativa de desvalorização.”

Agradecimento às entrevistadas
Da esq. para a dir., Amanda Accioli, Ligia Ramos e Augusta Cotrim
Matéria publicada na edição 320 março 2026 da Revista Direcional Condomínios
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