Gato manobrista, planta suspeita, cama redonda. Confira cenas de condomínios

“Nos condomínios, tem adulto que age igual à criança que faz arte e inventa uma história rocambolesca para se safar. é surreal!
Josi Trioni, síndica profissional
Em um dos prédios que administro, havia uma senhora com mania de perseguição. Tudo de ruim que lhe acontecia era por ‘culpa de algum vizinho que não gostava dela’. Certa manhã, ela me enviou um pedido de ajuda por mensagem, dizendo que seu veículo – normalmente estacionado em área descoberta e com certa inclinação – não se encontrava na vaga. Depois, avisou-me que o havia localizado na parte baixa do terreno, junto ao muro. O veículo tinha até feito uma leve curva, e a lanterna havia se estatelado no muro. Na imaginação dela, alguém havia entrado debaixo do carro na madrugada e mexido nele para prejudicá-la. Por isso, ela exigia ver as gravações da câmera.
Encontrei-me com essa senhora para juntas olharmos as imagens. Vimos que, em determinado momento, o carro desceu sozinho e ainda bateu em outro veículo. As filmagens revelaram aquilo que eu já desconfiava: ninguém havia se aproximado do carro dela. Então, eu disse a ela que talvez a última pessoa da família que usara o carro houvesse esquecido de puxar o freio de mão. Ela rejeitou essa possibilidade, olhou-me séria e disse: ‘Já sei, foi aquele gato da vizinha, ele não gosta de mim. Ele entrou no carro pelo motor e soltou o freio de mão’. Ela ainda queria que eu responsabilizasse a tutora do bichano! Com o tempo, o esposo contou para alguns vizinhos que havia esquecido de deixar o freio de mão puxado. Mas ela, se bobear, sustenta a história do gato até hoje. Ah, o felino se chamava João e ficou popular entre os condôminos, sendo conhecido como ‘o manobrista do condomínio’.

“Estou na sindicatura há dez anos, vi tantas coisas! mas sempre acontece algo que surpreende até síndicos experientes.
Roger Prospero, síndico profissional
Síndico que trabalha com implantação precisa fazer vistorias de áreas comuns, passar um pente-fino do telhado ao subsolo antes de receber o condomínio. Numa dessas ocasiões, eu estava, junto com minha equipe, em um condomínio cuja entrega atrasara – os condôminos já estavam meio irritados. A área de lazer fora concebida no topo do edifício, onde uma planta destoava do belo paisagismo. Era alta, frondosa e com folhagem abundante. Até a fotografei para investigar melhor. Mas nem foi preciso, pois chegou a etapa das podas, e a paisagista me ligou: ‘Encontramos um pé de maconha, vamos cortar imediatamente’. Rimos muito e concluímos, brincando: ‘Está explicado por que a entrega da obra atrasou’.
Também fiquei surpreso quando assumi um condomínio grande na zona sul, que havia sido entregue oito meses antes. Assim que cheguei, fui procurado por um condômino, querendo me levar a uma sala técnica para confirmarmos um boato que circulava pelo condomínio. Concordei e chamei o zelador para abrir o local. Quando entramos, deparamo-nos com um quarto de motel, equipado com cama redonda, espelhos e outros adereços. Não faço ideia de por quem ou por quais pessoas o espaço era utilizado. Mandei desfazer tudo, mas antes emiti um comunicado geral, porém discreto, pedindo que viessem retirar objetos pessoais encontrados em uma sala técnica. Ninguém apareceu.
Em outro condomínio, surpreendi-me quando um morador, muito discreto, viu-se no centro de confusões. Do nada, decidiu fazer a confraternização de fim de ano da empresa no salão de festas e na churrasqueira. Deu uma festa de arromba, com som alto e gente bêbada pulando na piscina só de roupa íntima. A unidade recebeu cinco multas. Mas isso foi o de menos. Uma semana depois, o porteiro me ligou às 5h da manhã para avisar que havia uma mulher com um megafone no portão, chamando a esposa desse morador de ‘corna’. Era a ex-amante dele que, inconformada com o término da relação, decidiu revelar a traição e acabar com o sossego do casal – e de todo o condomínio.”
Depoimentos concedidos a Isabel Ribeiro
Matéria publicada na edição 320 março 2026 da Revista Direcional Condomínios
Não reproduza o conteúdo sem autorização do Grupo Direcional. Este site está protegido pela Lei de Direitos Autorais. (Lei 9610 de 19/02/1998), sua reprodução total ou parcial é proibida nos termos da Lei.