Pombos no telhado, ‘cobra’ no jardim, distração na guarita … Confira a seguir

“A sindicatura nos dá inúmeras oportunidades de fugir da rotina, tamanha a diversidade de situações nos condomínios.
Leandro Noronha, síndico profissional
No meu caso, sem querer, acabou contribuindo para aumentar o ‘nível de emoções’, porque gosto de participar ativamente de tudo que se refere aos condomínios. No mês passado, por exemplo, passei por uma experiência que poderia ter evitado. Em um dos residenciais que administro na região de Santo Amaro, iríamos trocar o telhado. Decidi acompanhar o representante da empresa que faria a nova cobertura e o engenheiro contratado pelo condomínio em uma inspeção in loco. O meu problema não é com altura, mas com animais de penas. É um trauma ligado à infância, da época em que meu avô tinha criação de galos, patos e faisões, e tenho pesadelos recorrentes com aves.
Voltando ao telhado: eu sabia que havia pombos abrigados ali, mas desconhecia a quantidade deles. Talvez por isso, decidi enfrentar meu trauma. Encontrei um cenário de filme de terror, com cerca de 30 aves mortas e fezes por todos os lados. Havia muitos ninhos, com filhotes piando. Já os adultos arrulhavam sem parar. O território estava dominado. E eu ali, um homem de quase um metro e noventa, se esgueirando pelas vigas, encolhido, em um espaço com um metro e meio de altura. Na metade do caminho, tive uma cãibra intensa na perna. Paralisei, apoiado na viga, com uma multidão de pombos me encarando. Não havia espaço para fazer um alongamento, e ainda precisava percorrer uma área extensa. Em pânico, pedi que chamassem os bombeiros. Porém, o temor de ser arrastado dali em meio às fezes me fez mudar de ideia e criar forças para prosseguir, capengando. Depois disso, penso seriamente em reavaliar meu costume de acompanhar profissionais a todos os lugares.
Em outro residencial, um dia desses, eu estava em uma reunião com o conselho e até pedi licença para atender a uma ligação insistente de uma moradora. Afinal, poderia se tratar de algo urgente. Ela relatou que era alérgica e que o forte odor de eucalipto no hall do andar estava prejudicando sua saúde. Pedia providências. Quando encerrei a ligação, uma conselheira disse: ‘Isso é coisa de religião de matriz africana’. A outra rebateu: ‘Pois eu sou adepta. Algum problema?’. E aí, tive de apaziguar os ânimos. Em seguida, pedi ao zelador que interfonasse para os outros três apartamentos do mesmo andar da reclamante e, sem mencionar a vizinha, perguntasse se mais alguém estava sentindo o mesmo cheiro. O primeiro vizinho respondeu: ‘Sim, também sinto. Mas antes o cheiro de eucalipto do que o do cachorro’. O segundo respondeu: ‘Sim, eu passo um produto no hall por causa do cheiro do cachorro’. Agora, eu deixo duas perguntas: adivinhem de quem era o cachorro malcheiroso? E, para quem sobrou conversar com a tutora? Sim, a vida do síndico não para.”

“Estou há 16 anos na sindicatura e noto que, seja qual for o perfil do condomínio, em algum momento, o inusitado acontece.
Andre Blachman, síndico profissional
Em um dos residenciais que administro, um prédio tranquilo em bairro nobre da capital paulista, recebi uma reclamação por WhatsApp no estilo ‘textão’. A moradora havia esquecido o controle remoto e teve dificuldade para acessar a garagem ao chegar de madrugada. Segundo ela, a portaria demorou demais porque ‘alguém havia dormido em serviço’. Achei prudente puxar as imagens para checar se não havia exageros na narrativa antes de falar com a porteira do turno da noite. Realmente, ela não havia dormido. Estava desperta na guarita, fazendo sexo com o namorado, um ex-porteiro do condomínio. Depois, fui até a colaboradora e disse que reclamaram da demora em abrir o portão na madrugada. Ela respondeu que andava cansada e tinha cochilado algumas vezes. Para evitar embaraços, apenas comentei: então, eu nem preciso ver nas imagens o que houve. Obviamente, substituímos a porteira.
Cenas de sexo com os colaboradores são raras nos condomínios; fora isso, a situação é bastante comum. Em prédios comerciais, pessoas que trabalham em consultórios ou escritórios preferem a privacidade das escadas de emergência; nos residenciais, um dos locais favoritos dos moradores é a piscina. E há os famosos barulhos de sexo em apartamentos. Lembro-me de um morador que recebeu uma convidada, e logo vieram reclamações de gritos de mulher. Poderia ser uma briga. Pedi ao gerente predial que verificasse se estava tudo bem. Ele bateu à porta, e uma moça nua a abriu. Depois de ouvi-lo, encarou-o provocativa e disse: ‘Eu grito mesmo. Quer juntar-se a nós?’. Ele deu as costas, mas ela o perseguiu pelo corredor. Imagino o desconforto dele, que ficou sem jeito até na hora de relatar o ocorrido.
Condomínios são propícios a alguma confusão. Tem o proprietário que aluga o apartamento pelo Airbnb, anunciando que a unidade possui vaga de garagem, enquanto ele próprio já a aluga para algum morador do condomínio. E quem é chamado? O síndico! Mas também tem confusão que termina em boas risadas. Certa vez, moradores compartilharam a seguinte percepção: havia uma cobra no jardim. Nos mobilizamos por dias e nada de encontrá-la. Até que um pedaço de mangueira vermelho, amarelo e preto chamou minha atenção: aquilo era a ‘tal cobra-coral’. O manutencista usava a mangueira como extensão para a lavadora de alta pressão e sempre a deixava mais perto da última área que havia limpado. Por isso, a ‘cobra se movia’ para diferentes pontos do jardim.”
Matéria publicada na Edição 327 – outubro/2026 da Revista Direcional Condomínios
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