Algo está fora da ordem nos condomínios residenciais

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Papai Noel denunciado? Buraco repentino no refeitório? Condomínio mudo? Droga em pilastras? Veja as histórias a seguir   

“O síndico precisa lidar com falta de noção e empatia dentro do condomínio e, às vezes, até na vizinhança… 

Eduardo Boscolo, síndico profissional  

No final do ano passado, eu me encontrava trabalhando em um dos meus condomínios quando o porteiro me avisou que a polícia queria falar comigo. Eu ando dentro da lei, mas, ainda assim, levei um sobressalto. Relaxei ao chegar à portaria e perceber que a policial sinalizara ao parceiro, estacionado nas proximidades, que estava tudo bem. E ela trazia um sorriso no rosto, olhando para o grande Papai Noel que, todo ano, diverte a vizinhança. O boneco tem sensor de presença e canta e rebola o bumbum quando detecta movimentos na calçada. Ele fica dentro de uma clausura completamente fechada com vidros — como se estivesse em uma vitrine.   

O boneco faz muito sucesso com crianças e idosos, exceto com determinado vizinho de um prédio do outro lado da rua, aliás uma via larga, de mão dupla, com faixas para estacionar dos dois lados. Não é que a policial estava ali por causa do Papai Noel? Atendendo a uma denúncia de perturbação do sossego? O reclamante dizia não conseguir dormir, embora o boneco fosse desligado às 20h. A policial lamentou apenas que o tempo dela poderia ter sido empregado onde a PM realmente se fizesse necessária. Soube que tal vizinho continuou ligando para a corporação, mas esta já sabia que a queixa era improcedente.   

E, por falar em polícia, anos atrás me vi envolvido em uma situação real e fui à delegacia fazer um boletim de ocorrência. Durante queda de energia, alguns moradores de determinado condomínio ficaram presos no elevador, entre eles um jovem, a quem eu ‘pegava no pé’ por fumar maconha nas áreas comuns. Quando a porta abriu, ele disse que o ocorrido era por culpa da m* da manutenção. Eu o repreendi. Aí, ele veio para cima, querendo me agredir, proferindo acusações, palavrões e ofensas gordofóbicas — sou uma pessoa gordinha. O porteiro o segurou, mas achei melhor abrir um BO por injúria, com testemunhas, até porque deturpou a história para o pai dele, acusando-me de tentar bater nele. Outra vez, o mesmo sujeito me ligou às duas da madrugada, desesperado, querendo saber o que eu havia feito com o ‘bagulho’ dele. É que ele costumava esconder maconha pelo condomínio; quando encontrávamos, descartávamos. Até protetores de pilastras em garagem serviam de esconderijo. Esse dava canseira.”   


  

“Muitas vezes, as pessoas sabem que estão fazendo algo errado, mas agem mesmo assim porque acreditam que ninguém vai perceber.   

Lucimar Oliveira, síndica orgânica

Administro um empreendimento misto na região central, com sete lojas no térreo, onde um episódio ocorrido há algum tempo me fez ver até onde vai a desfaçatez do ser humano. Um dos condôminos das lojas resolveu instalar um aparelho de ar-condicionado, fez um buraco na parede e direcionou a condensadora para o refeitório dos funcionários. No dia seguinte, quando o zelador chegou para trabalhar, encontrou a ‘novidade’ e me avisou. Informei a assessoria jurídica e solicitei uma notificação extrajudicial com prazo de 48 horas para fechamento do buraco. Inacreditavelmente, o proprietário veio me procurar para dizer que não havia feito nada demais. Levei esse senhor até o refeitório, avisei que daquele jeito pingaria água no ambiente. Ele fechou o buraco, mas com muita má vontade.   

No mesmo condomínio, com 15 andares e 137 unidades, os interfones ficaram mudos. A empresa que prestava atendimento nos sugeriu a instalação de uma nova central. Lembrei-me da antiga empresa, que foi substituída pelo síndico anterior por motivos pessoais, e pedi uma segunda opinião. Esta disse que poderíamos permanecer com a mesma central e que faria um levantamento técnico em cada quadro de interfone até encontrar em qual unidade estava passando a corrente elétrica. Troquei de empresa imediatamente. Iniciamos a varredura e encontramos o dano. Um morador instalou uma tomada para carregar celular junto aos fios do interfone, o que, em resumo, veio a danificar a placa de comando da central dos interfones, causando um prejuízo de R$ 4 mil, fora o risco de incêndio. Até conseguir chegar à raiz do problema e resolver a situação, foram duas semanas sem comunicação por interfone. O autor da gambiarra? Se fez de desentendido, óbvio!”   

Depoimentos concedidos a Isabel Ribeiro   

Matéria publicada na edição 321 abril 2026 da Revista Direcional Condomínios

Autor

  • Jornalista Isabel Ribeiro

    Jornalista apaixonada desde sempre por revistas, por gente, pelas boas histórias, e, nos últimos anos, seduzida pelo instigante universo condominial.