Há diversas particularidades na gestão de condomínios com muitos moradores 60+. A atenção vai do respeito às limitações aos cuidados com as instalações e o planejamento de melhorias
O Brasil tem cerca de 36 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, aproximadamente 17% da população, segundo dados do IBGE. Com um crescimento médio estimado em 1,1 milhão de idosos por ano, o envelhecimento populacional é uma realidade concreta e irreversível. Projeções indicam que em 2050 o Brasil terá cerca de 60 a 70 milhões de idosos, o que representará mais de 30% da população total do país.
Neste cenário, como vivem os idosos nos condomínios? É natural que muitos idosos morem sozinhos. O Censo 2022 mostra que 28,7% das pessoas de 60 anos ou mais moravam sós, por fatores como saída dos filhos de casa, divórcio e viuvez. Até por isso, a chamada geração prateada prefere apartamentos a casas, seja pela segurança ou pela maior facilidade de manutenção do imóvel.
Nilvea Alcalai, síndica profissional há cerca de nove anos, nota que cada condomínio tem seu DNA, alguns com moradores mais idosos. “Isso ocorre principalmente em condomínios com mais idade. Há condôminos que chegam jovens ao edifício e permanecem até a terceira idade. O síndico não pode deixar de lado questões básicas, principalmente em relação a pisos bem nivelados, instalação de corrimãos e de fitas antiderrapantes onde for necessário. São detalhes que podem passar despercebidos no dia a dia, mas que significam um olhar carinhoso para os idosos”, sustenta.
Esse ‘olhar carinhoso’ a que se refere Nilvea também acontece quando algum colaborador ajuda o morador a fazer a reserva de área comum pelo aplicativo ou retirar uma encomenda no armário tipo locker, por exemplo. “Isso não é rotina, mas acolhemos o condômino quando percebemos algum problema”, diz.
O cuidado pode se revelar ainda conhecendo o dia a dia do idoso. “Sou gestora de um condomínio com uma funcionária muito antiga que já sabe em que horário determinado morador desce para tomar sol, percebendo assim se ele está bem e cumprindo a sua rotina”, conta Nilvea, que já precisou levar um condômino idoso ao hospital. “Para mim não foi nenhum sacrifício. E justamente por isso precisamos ter no cadastro do apartamento o contato do responsável pelo morador para que possamos acioná-lo em caso emergencial”, pontua.
Gentileza e não obrigação
O síndico profissional Luís Lopes concorda com Nilvea no sentido de ajudar sempre que possível os idosos, por exemplo, subindo compras para o apartamento. Mas ele acredita que esse tipo de ação não pode ser encarado como uma obrigação dos colaboradores do condomínio. “Peço para os funcionários decidirem sempre pelo bom senso. Sempre falo para as equipes que eles podem ir à farmácia numa emergência ou ajudar com as entregas, mas desde que isso não se torne obrigação”, diz.
Outro tipo de favor muito comum que os funcionários costumam prestar aos condôminos idosos são os passeios com os pets. “Muitas vezes essa tarefa recai para os funcionários. Nesse caso também oriento os colaboradores: faça como gentileza, mas não confunda com obrigação”, afirma Luís.
Luís Lopes também aponta o cadastro dos moradores com mais de 60 anos como essencial. Ele justifica a necessidade de cadastros bem detalhados dos idosos, com informações sobre remédios, doenças, plano de saúde, contatos de emergência. Luís compara os cuidados com idosos aos dispensados às crianças: assim como a equipe deve saber se a criança tem autorização para sair do condomínio com a babá, ela deve saber se o idoso pode sair com a cuidadora ou o motorista.
Para atender a esse perfil de moradores, a síndica profissional Janice Haupt fica muito atenta à formação das equipes. No prédio onde mora e é síndica, em Higienópolis, que tem 38 apartamentos com a maioria ocupada por idosos, os colaboradores passaram por treinamento com uma empresa especializada em formação de cuidadores. “Foi um treinamento mais comportamental, de sensibilização, onde foram detalhadas as dificuldades dos idosos. Foi um sucesso”, detalha Janice.
Uma dificuldade que costuma surgir em condomínios com perfil de moradores da geração prateada é a aprovação de obras, seja pelos caixas apertados ou porque os condôminos, aposentados, muitas vezes não conseguem absorver o custo de rateios para melhorias necessárias.
Janice costuma fazer o pagamento inicial de obras tomando ‘emprestado’ do fundo de reserva e parcelando o restante em suaves mensalidades de rateio. Foi assim com a troca das portas de madeira dos elevadores por portas de correr no prédio onde reside, mais seguras e que ocupam menos espaço nos halls. Recentemente, ela assumiu a gestão de outro condomínio em Higienópolis, com o mesmo perfil de condôminos seniores, apenas 12 apartamentos e muitas obras por fazer. “O segredo é fazê-las aos poucos. Iniciei trocando a central de interfone que ainda era analógica, daquelas de madeira. Agora, aos poucos vamos substituir as câmeras por modelos mais modernos. Apesar do receio inicial com o custo, hoje os moradores estão satisfeitos e se sentindo mais seguros”, conta.
Prevenir é fundamental
Com 27 anos de vida condominial, Luís Lopes reúne uma boa experiência com idosos em condomínios. E acredita que já criou uma boa percepção do que pode ser perigoso para idosos antes mesmo de um acidente acontecer. “O síndico deve ter uma visão preventiva.” Piscina, sauna e academia são espaços onde acidentes podem ocorrer. Por isso, recomenda colocar no regulamento de cada espaço que idosos não devem permanecer sozinhos nesses ambientes.
Ele se recorda de um caso envolvendo uma vistosa passadeira que decorava um longo corredor, que ligava a entrada do condomínio ao hall dos elevadores e também dava acesso a seis apartamentos do tipo garden. “Logo que assumi pedi para o zelador retirar a passadeira. Ela era muito bonita, mas perigosa. As pontas já estavam viradas para cima”, lembra. O caso foi discutido no conselho, que não reuniu maioria para embasar a decisão do síndico. Luís então levou o tema para assembleia. “Mais da metade da assembleia era contra a retirada da passadeira. Argumentei que se acontecesse algum acidente a responsabilidade seria de todos. Depois disso foi unânime a decisão pela retirada da passadeira. E ressalto que o prédio não tinha um perfil com muitos idosos, mas qualquer um poderia tropeçar, cair e se machucar”, justifica.
Atenção e cuidados com os moradores idosos podem não significar altos investimentos e tampouco decisões assembleares conturbadas, mas irão certamente aumentar a qualidade de vida e o bom convívio no condomínio.
O síndico Luís costuma disponibilizar ambientes das áreas comuns para momentos de lazer dos idosos. Ele comenta que, assim que assume um novo condomínio, informa ao conselho que abre as áreas comuns, como o salão de festas, para atividades dos moradores. “Os espaços, muitas vezes, ficam ociosos. Um salão de festas, por exemplo, que é alugado uma ou duas vezes por mês, pode receber idosos durante a tarde ou até mesmo crianças em dias de chuva. Nunca tive restrições de moradores quanto a essa flexibilidade”, aponta. Ele cita condomínios onde senhoras se reúnem à tarde até para assistir a programas de receitas culinárias pela televisão. “Nesse condomínio, havíamos adquirido uma TV de 60 polegadas para o salão de festas. O salão se tornou um espaço de convivência para as moradoras.”
Nilvea Alcalai também tem sob sua gestão condomínios com boas soluções. Em um deles, um professor de Educação Física dá atividades para os idosos, como hidroginástica, musculação e até festas temáticas – que acontecem na churrasqueira, cedida pela administração. Em outro caso, a iniciativa é dos próprios moradores da terceira idade, que se reúnem para ir ao teatro ou até mesmo à piscina e ao restaurante do condomínio. “É um condomínio-clube onde as pessoas se sentem acolhidas. Essa união acaba gerando até uma grande procura de apartamentos pelos idosos”, relata.
Sob medida para a geração sênior
Nunca se falou tanto do envelhecimento da população brasileira. O mercado imobiliário vem se adaptando a essa tendência e temos visto novos empreendimentos baseados no conceito de arquitetura sênior living, com imóveis voltados para os 60 mais, uma população que busca independência com qualidade de vida, segurança e convívio social.
A síndica Janice Haupt assumiu, a convite da construtora, a administração de um novo condomínio projetado para moradores seniores. São 104 apartamentos com 52 metros quadrados cada, com opção para 104 metros quadrados. Os apartamentos são entregues com facilidades como portas mais largas, possibilitando a passagem de cadeiras de rodas, barras de segurança no banheiro, ausência de box de vidro e botões de pânico que comunicam qualquer emergência com a portaria. O layout do apartamento também permite a circulação com segurança de pessoas com dificuldade de mobilidade, sem espaços apertados.
Os dois primeiros andares do edifício contam com espaços como lavanderia, sala de costura, sala de fisioterapia equipada, salões de beleza masculino e feminino, churrasqueira, salão de festas, espaço gourmet, sala de atividades para dança, yoga ou mesmo um carteado, piscina aquecida, academia com equipamentos de Pilates, espaço pet, além de uma área livre com lago com carpas. Além disso, o elevador de serviço comporta uma cama hospitalar.
Janice destaca que o empreendimento todo atende às normas de acessibilidade. E ela ressalta uma iniciativa inteligente: “O edifício já foi concebido com espaços que podem ser locados pelo condomínio, como o restaurante, sala para atendimento médico e a garagem, que é terceirizada e aberta para terceiros, gerando renda extra. Os moradores que querem utilizar a garagem pagam um valor diferenciado.”
Além das gestões administrativa, financeira e de manutenção que são exigidas dos síndicos, em um condomínio como esse, voltado para idosos, Janice também está ouvindo os moradores para conhecer quais atividades eles mais gostariam de ter à disposição. “Os primeiros moradores chegaram recentemente e já fizemos uma reunião para ouvi-los. Atividades cognitivas foram bem votadas nas pesquisas e estamos começando a desenvolver com empresas especializadas o que iremos oferecer.”

Agradecimento aos entrevistados
Na ordem, da esq. para dir.:
Nilvea Alcalai, Luís Lopes e
Janice Haupt
Matéria publicada na Edição 327 – outubro/2026 da Revista Direcional Condomínios
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