Sonia Pelizaro: transforma experiência, estudo e capacidade de gestão em melhorias concretas para os condomínios

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Síndica profissional, Sonia Pelizaro desenvolveu habilidade para que jornadas de obras impactem menos a rotina condominial   

“Sou natural de Franca, filha única da união do meu pai com minha mãe. A primeira esposa dele o abandonou com quatro filhos, e minha mãe enviuvou com quatro filhos. Quando se casaram, os caçulas de ambos tinham oito anos. Na verdade, os filhos da minha mãe não aceitaram bem o segundo casamento dela, nem vibraram com a minha chegada, 14 anos após ela ter dado à luz o mais novo. Mas, com o tempo, o amor fraterno, genuíno, prevaleceu entre nós. Aos três anos, perdi meu pai. Na época, minhas irmãs por parte de mãe moravam no Rio de Janeiro, e os rapazes, que saíram de casa muito cedo, tinham ido estudar e trabalhar em São Paulo. Minha mãe, então, levou os filhos do meu pai para o nosso avô paterno e partiu comigo para a capital.   

Fomos morar com meus irmãos em uma quitinete que eles dividiam na Avenida Cásper Líbero. Um deles, funcionário do Banco do Brasil, recomendou minha mãe às esposas dos gerentes. Exímia costureira, ela começou a atendê-las em domicílio, comigo a tiracolo. O volume de costuras cresceu, e ela me deixou com uma senhora no Bom Retiro. Só me buscava nos finais de semana. Eu frequentava a escola com as outras meninas da casa e brincávamos na rua de sobradinhos geminados. Uma vez, subimos no caminhão de um vizinho. Encontramos alguns talões de cheque e os pegamos para brincar de escolinha. Quando ele notou, falou com a cuidadora, que nos bateu. Minha família viu os hematomas e concluiu que eu ficaria mais segura em um colégio interno. Ali, após termos aula pela manhã, as freiras nos mandavam limpar tudo porque havia turno vespertino para alunos externos.   

Passei a adolescência com minha mãe, sempre em sua máquina de costura. Eu via roupas bonitas nas vitrines, desenhava e ela as fazia para mim. A essa altura, morávamos em um apartamento próprio, de um dormitório, também na Cásper Líbero. Os meus irmãos se casaram, e aquele espaço era suficiente para nós duas – tinha até uma varandinha! Aos 17 anos, comecei a trabalhar porque, no ano seguinte, teria de pagar a faculdade. Escolhi cursar Letras com ênfase em inglês, mas nunca lecionei. Usei esse idioma para me consolidar como secretária-executiva bilíngue em multinacionais.   

Meu primeiro emprego foi em uma corretora de seguros, onde ingressei como auxiliar no departamento de sinistros e saí como secretária. O segundo foi na Price Waterhouse. Depois fui para o Lloyd’s Bank, onde tive contato com computadores de letras verdes nas telinhas, uma revolução na rotina das secretárias – não perdíamos mais tempo com retrabalho por erros de datilografia. Na sequência, trabalhei em grandes empresas de importação e exportação, assessorando gestores da Glencore, Coimex e outras tradings. E assim se passaram 30 anos! Aposentei-me cedo, mas ainda continuei atuando como secretária- -executiva durante alguns anos e, em paralelo, tornei-me consultora de cosméticos da Mary Kay, chegando a constituir uma equipe com 72 vendedoras. Gosto de gente. Sou comunicativa.   

Quando era mais moça, uma conversa de elevador me levou ao altar. Comentei com um vizinho, engenheiro, que meu dia havia sido puxado e eu estava com dor de cabeça. Logo depois, ele tocou a campainha da minha mãe, trazendo-me um analgésico e me convidando para sair no sábado. Sim, também existe amor nos condomínios (rs!). Namoramos, casamos, tivemos a nossa filha e, mais tarde, nos separamos. Mas, ainda na fase de noivado, adquirimos um bom imóvel em um edifício da década de 1960, no Paraíso. Reformamos o apartamento e nos instalamos após o casamento. Resido nesse condomínio há 40 anos e cuido da administração desde 2015. Sou também síndica de um residencial na Bela Vista, onde estou no terceiro mandato. Sinto-me privilegiada por ter pessoas que confiam em mim. Isso denota satisfação… ou que ninguém quer esse cargo (rs!). Prefiro a primeira alternativa.   

Durante a vida corporativa, trabalhava mais de 12 horas por dia e nunca consegui sequer participar de uma reunião de condomínio. Quando encerrei esse ciclo, passei a ter mais tempo livre e quis fazer algo proveitoso, além das ações de voluntariado, que me fazem bem. Algumas vizinhas me levaram a acreditar que mudanças no corpo diretivo eram necessárias. Segundo elas, se eu me tornasse síndica, os maridos seriam os novos conselheiros e dariam suporte. Mas, no fundo, elas só queriam trocar a síndica. Conseguiram. Eu me vi sozinha no cargo. Ou melhor, frente a frente com os conselheiros antigos. No início, faltava um pouco de confiança mútua. O dia a dia, porém, mostrou que éramos todos bem-intencionados e proativos. Criamos sinergia.   

Trouxe para a gestão aptidões do corporativo, como facilidade com leitura de contratos e controle diário do fluxo de caixa. E busquei aprimoramento em um curso de sindicatura profissional. A partir daí, aprovamos em assembleia um Plano Diretor, que facilitou o planejamento de obras e manutenções no condomínio do Paraíso. Também validei meu conhecimento. Sou da primeira turma da certificação Síndico 5 Estrelas. Fiz uma prova com mais de 500 inscritos e fiquei entre os 44 aprovados. Não falo isso por mera vaidade. É sobre o orgulho de ter recomeçado na maturidade em um mercado tão promissor quanto o condominial. A sindicatura me faz acordar com um propósito. O meu é idealizar e implantar coisas boas para os condomínios.   

Estudo muito e sei o que o mercado tem de melhor a oferecer aos prédios, mas é difícil convencer as pessoas de que uma mudança será boa para o condomínio. Temos de ter uma argumentação clara e objetiva para sustentar nossas propostas. No prédio do Paraíso, entre outras contribuições da minha gestão, implantamos a portaria remota, reduzindo a quantidade de funcionários de 11 para cinco; revertemos um déficit de R$ 50 mil na conta ordinária em 11 meses; instalamos uma moderna academia e corrigimos uma infiltração na garagem. No prédio da Bela Vista, que tem 40 anos, impermeabilizamos as caixas-d’água e reformamos a área de apoio aos funcionários. E devemos aprovar uma obra estrutural na garagem. Desenvolvi habilidade com obras. Existe o jeito certo de falar com os trabalhadores, para que não se ofendam, para que deixem tudo mais limpo e organizado no final do dia, de modo que o período de obras impacte menos a rotina do condomínio. Mas não sou a ‘síndica das obras’. Para mim, ser síndica significa cuidar do condomínio em sua totalidade: olhar a edificação, as máquinas, os controles e o financeiro. Mas, sobretudo, olhar pelo bem-estar das pessoas.”   

Sonia Pelizaro em depoimento concedido a Isabel Ribeiro     

Matéria publicada na Edição 327 – outubro/2026 da Revista Direcional Condomínios

Autor

  • Jornalista Isabel Ribeiro

    Jornalista apaixonada desde sempre por revistas, por gente, pelas boas histórias, e, nos últimos anos, seduzida pelo instigante universo condominial.