Humanizar não é eufemizar: etarismo, TEA e a coragem de nomear a diferença nos condomínios

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Nos condomínios, é comum ouvirmos frases ditas com a melhor das intenções: “o coitadinho do seu João, já está bem velhinho”, “a criança é autista, melhor deixar em casa para não se estressar”, “aqui todo mundo é normal, não precisamos complicar com regras novas”. Por trás desse tom carinhoso e protetivo, muitas vezes esconde-se uma forma sutil — e por isso mesmo perigosa — de etarismo e capacitismo. É uma violência de baixa intensidade que infantiliza, estigmatiza e, no limite, exclui.

Chamar a pessoa idosa de “velhinho” ou “coitadinho”, ou referir-se à pessoa autista apenas como “especial” ou “alguém com problemas”, não é uma mera questão de escolha de vocabulário. É uma operação linguística deliberada que transforma o respeito à autonomia em uma proteção paternalista sufocante. Quando o conselho ou o síndico, por si ou às vezes por influência de alguns condôminos, decidem que o idoso “não entende mais as contas” para excluí-lo de assembleias, ou que a criança autista “não aguenta o barulho” para justificar sua ausência nos espaços comuns, estão decidindo pela pessoa em vez de decidir com ela.

O problema central não reside na intenção de cuidar, que é legítima, mas em quando essa linguagem serve de anteparo para evitar adaptações reais e necessárias. O eufemismo torna-se uma zona de conforto para a gestão que não quer enfrentar o desafio da acessibilidade comunicacional, do tempo adequado para manifestações em reuniões, da redução planejada de estímulos sensoriais ou, simplesmente, do respeito ao ritmo singular de cada indivíduo. Nesses casos, o discurso de “humanizar” vira exclusão disfarçada de gentileza.

A verdadeira gestão humanizada não se constrói com palavras que suavizam a diferença para que ela não nos incomode. Humanizar é reconhecer que pessoas idosas com plena capacidade civil e pessoas no espectro autista (TEA) com necessidades específicas têm direito inalienável à participação plena na vida condominial. É oferecer os chamados “ajustes razoáveis”, previstos na Lei Brasileira de Inclusão (LBI), sem transformar o morador em objeto de pena ou caridade. É ter a coragem de nomear a realidade com precisão: o etarismo e o capacitismo são patologias sociais que adoecem o ambiente coletivo.

Essa questão conecta-se diretamente com a gestão de riscos psicossociais preconizada pela NR-01. Ambientes que toleram microagressões linguísticas, exclusão velada ou a infantilização sistemática de grupos específicos geram insegurança psicológica e isolamento social. O risco organizacional aqui é claro: o idoso que se cala para não ser rotulado como “gagá”, a família que evita as áreas comuns para não “incomodar” a suposta normalidade alheia, e o síndico que, por despreparo ou influência do meio, prefere o silêncio ao diálogo inclusivo.

O preço desse isolamento é pago pela saúde mental de toda a comunidade.

O síndico que exerce uma gestão humanizada e em compliance não se arroga o direito de decidir “o que é melhor para o outro” baseando-se em estereótipos de fragilidade. Ele atua como garantidor de direitos, cumprindo o Estatuto da Pessoa Idosa e a LBI. Ele reconhece que a autonomia é um valor supremo que não se negocia com eufemismos “fofos”.

Para refletirmos sobre a cultura de nossos condomínios, proponho três perguntas fundamentais para a próxima assembleia ou reunião de conselho:

1. Consciência Linguística: Como nos referimos, formal e informalmente, aos moradores idosos ou neurodivergentes? Nossos termos preservam a dignidade adulta ou reforçam uma visão infantilizada?

2. Participação vs. Proteção: Nossas iniciativas de “cuidado” estão ampliando a participação real dessas pessoas nos processos decisórios ou estão servindo de pretexto para restringir sua presença sob o argumento da proteção?

3. Compliance e Dignidade: Já utilizamos o argumento de que “é melhor para ele/ela” para evitar as adaptações estruturais ou procedimentais que a lei e a dignidade humana exigem de nós?

As palavras carregam o poder de abrir portas ou erguer muros invisíveis. Humanizar de verdade exige abandonar os eufemismos carinhosos ou covardes que apenas mascaram a desigualdade e passar a nomear necessidades reais com clareza técnica e respeito humano. Como diz o ditado popular, e quem me conhece sabe que o uso faz décadas: é melhor ficar vermelho cinco minutos — reconhecendo que nossa linguagem e processos ainda carregam vícios de etarismo e capacitismo — do que permanecer amarelo a vida inteira, perpetuando, com as melhores intenções, ambientes que excluem, silenciam e adoecem.

O condomínio que aprende a falar com precisão e respeito sobre idade e neurodiversidade não apenas cumpre a lei; ele torna-se, finalmente, um lugar verdadeiramente humano para todos os seus habitantes.

Autor

  • Prof. Gianpaulo Scaciota

    Mestre em Direito, mediador certificado e especialista em saúde mental das organizações. Professor e coordenador científico do Curso de Gestão Condominial da Universidade Presbiteriana Mackenzie, é também diretor e cofundador da Condo College. Atua na formação de síndicos e gestores com foco em gestão humanizada, prevenção de conflitos e governança condominial. Mais informações: @condo_college_br