“Ser síndico, para mim, é motivo de orgulho e gratidão”
“Estou no ramo condominial há 30 anos e, há 20, abracei a sindicatura profissional. Tenho grande apreço pelos condomínios, pois foi desse setor que tirei o sustento da minha família. Ser síndico, para mim, é motivo de orgulho e gratidão. Na adolescência, trabalhei fazendo courinhos para torneiras em uma prensa de três toneladas. Jamais poderia supor que um dia teria uma empresa. Na vida adulta, cresci junto com os edifícios da cidade e me estabeleci como empresário nesse segmento, tão dinâmico que aprendo coisas novas todos os dias.
Sempre fui centrado e determinado a vencer por meio do meu próprio esforço. Sou paulistano, mas, ainda pequeno, vivi com meus pais em São Carlos, no interior do estado. Eles se separaram quando eu tinha 6 anos. Minha mãe voltou para a casa dos pais dela, no Tatuapé, na zona leste de São Paulo, comigo e meus irmãos — sou o filho do meio. Ela passou a trabalhar como atendente comercial na antiga Telesp, enquanto minha avó cuidava de tudo e de todos. Já meu avô era contador na Folha de S.Paulo. Eu adorava quando ele me levava ao trabalho. Em uma dessas ocasiões, conheci Maurício de Sousa. Como toda criança, eu curtia seus personagens. Foi um dia muito especial.
Aos 13 para 14 anos, comecei a trabalhar em uma fábrica do bairro, fazendo os tais courinhos. Estudava à noite, e a própria escola me indicou para participar da seleção para o Programa Menor Aprendiz do Banco do Brasil. Fui aprovado e fiquei dois anos e meio trabalhando no banco. Em seguida, já como aluno do curso técnico em Contabilidade em uma Etec, veio outro estágio, desta vez na Volkswagen, onde acabei contratado. Trabalhei seis anos no setor de faturamento, naquela fase em que a Volkswagen e a Ford se associaram como Autolatina. Em 1996, essa parceria chegou ao fim. Na reestruturação das montadoras, perdi o emprego.
Ter sido demitido aos 23 anos foi providencial. Outra história começou a ser escrita a partir de um anúncio de vaga para assistente administrativo na Lello Condomínios. Fui entrevistado na matriz, e decidiram me apresentar a um dos sócios da empresa, dizendo: ‘Ele tem perfil para coordenador’. O sócio me olhou e perguntou: ‘Você mora em condomínio?’. Respondi que não, ainda morava na casa dos meus avós. E encerrou o assunto dizendo: ‘Mas ele nem mora em condomínio e vai ser coordenador?’. Aquelas palavras foram determinantes para o meu futuro. Eu me senti desafiado a desbravar os condomínios.
Trabalhei na filial norte da Lello por quatro anos. Comecei na vaga anunciada e saí como gerente geral. Evoluí porque peguei gosto pelo setor. Logo que entrei, vi o Guia do Condomínio IOB, tirei xerox e ele virou leitura de cabeceira. Também recebi treinamento da Lello e sou muito grato pelo aprendizado. Com seis meses, já ia às assembleias, o que conflitou com a faculdade noturna. Tranquei o curso de Direito. Anos mais tarde, voltei a estudar, mas precisei trancar novamente. Um pouco depois, acabei me formando em Administração de Empresas, mas a paixão pelo Direito me fez retomar o curso e concluí-lo em 2026, quando também tirei o registro na OAB. Essas formações dão um bom alicerce na sindicatura.
Ainda no ramo das administradoras, trabalhei na Robotton e na E.A.L. Nesta última, tive a oportunidade de atuar também como síndico, a pedido de alguns clientes, e adquiri prática. Alguns anos se passaram até que, em 2006, deixei a administradora para abrir minha empresa de sindicatura. Foi uma decisão acertada. Com o tempo, tornou-se uma empresa familiar. Minha esposa, Carla, que foi minha colega na Lello, hoje é minha sócia, assim como nosso filho, Guilherme. Os dois são síndicos profissionais. Minha irmã mais velha, Fernanda, e meu sobrinho Vinícius, filho do meu irmão caçula, já falecido, também trabalham como síndicos na empresa. O time ainda tem outros síndicos. Juntos, cuidamos de cerca de seis mil unidades residenciais, um número adequado à nossa estrutura e ao nosso modelo de gestão.
Avalio que não poderia estar em melhor situação do que ao lado da minha família. Também é significativo compartilhar com eles um trabalho tão promissor. Afinal, não vejo a sindicatura sendo substituída pela inteligência artificial — acho que iria ‘dar ruim’ para o robô (rs!). A única exigência para trabalhar comigo é ter formação superior ou estar cursando uma faculdade, porque me deparo por aí com síndicos muito despreparados. A outra condição é deixar os assuntos de trabalho no local de trabalho. Abro exceções no almoço de domingo em casa somente para urgências. Gosto de separar as estações, tanto é que jamais quis ser síndico onde moro — sim, passei a morar em condomínio e gosto muito.
O perfil de nossa carteira é misto: reúne desde prédios triplo A até edifícios com unidades compactas. O forte das indicações é o boca a boca. Há poucos dias, assumimos um residencial porque a conselheira de outro condomínio que atendemos há anos, médica, nos indicou para uma paciente. Olha a triangulação! Isso é gratificante. Por outro lado, temos consciência de que, se falharmos na gestão de um, reverbera no outro. Não chega a ser uma preocupação, porque temos um bom histórico de longevidade nos prédios, inclusive naqueles com grande número de apartamentos. Procuramos acertar tanto no entrosamento com funcionários quanto com os condôminos. Valorizamos a proximidade, sem descuidar da tecnicidade. Aqui entra o valor da qualificação.
Como case de sucesso, cito um condomínio na zona sul, com 500 unidades, em que fomos reeleitos recentemente. Quando chegamos, havia uma dívida de R$ 300 mil, mas, em dois anos, pusemos as finanças em dia. Também refizemos o calçamento, fizemos outras melhorias, criamos calendário de eventos e contribuímos para melhorar a vida da coletividade. É notável o grau de satisfação dos moradores. Outro case positivo é o retrofit de um condomínio antigo nos Jardins que não tinha sequer AVCB, cuja regularização está sendo concluída agora.
Menciono esses dois cases para demonstrar como uma gestão comprometida impacta positivamente as pessoas e o patrimônio. Já uma má gestão prejudica a imagem da categoria. Temos síndicos muito bons no mercado, mas também há muitos aventureiros. Sonho que a sindicatura seja reconhecida como profissão, que seja criado um código de ética, que a qualidade da entrega deixe de ser duvidosa e que os valores praticados nas concorrências deixem de ser aviltantes. Esse é o meu desejo para o novo ano ou, ao menos, para os próximos anos.”
Luis Fabiano Leister, em depoimento concedido a Isabel Ribeiro
Matéria publicada na Edição 328 – nov-dez/2026 da Revista Direcional Condomínios
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