“Gerir condomínio é uma luta”
Síndica orgânica, Tanila Savoy lidou com moradora que abrigava 84 animais em apartamento em Higienópolis, em condições insalubres
“Sou advogada há 30 anos, trabalho com Direito Digital, de Família, Imobiliário e Condominial. Eu e o Direito nos entendemos muito bem; desde a infância, sempre verbalizei muito, o que é essencial na minha profissão. Gosto de pessoas, de conversar, de compreender por que determinada situação aconteceu, de ouvi-las com paciência para entender contextos e poder extrair informações de forma humanizada. O advogado tem de estudar e conhecer as leis, claro, mas o diferencial está em como ele olha para as pessoas e as ampara.
O Direito me deu subsídio técnico para abraçar a sindicatura — e coragem, pois gerir condomínio é uma luta! Desde 2018, atuo como síndica orgânica em um condomínio com 74 unidades, em Higienópolis, na região central de São Paulo. Quase ao mesmo tempo, tornei-me subsíndica em um condomínio em Campinas (SP), onde tenho apartamento. Mesmo advogando para condomínios, eu não me via do outro lado da mesa. Hoje, vejo a sindicatura como uma realização pessoal e profissional, pois consigo colocar muito de quem sou, do que acredito e do meu conhecimento jurídico. Sinto-me orgulhosa por ter dado esse passo, pois já atuei em situações emblemáticas.
Nasci em Campinas, no interior de São Paulo. Até os meus 18 anos vivi em Mogi Mirim com minha família. À época da faculdade, morei sozinha em Campinas, onde me estabeleci profissionalmente, casei-me e adquiri um apartamento em um condomínio muito agradável. Minha filha mais velha nasceu lá. Quando estava à espera do caçula, mudamos para São Paulo. Mantive meu escritório em Campinas e abri outro na capital. Hoje, tenho um terceiro em Maringá (PR), com uma sócia especialista em investigação digital. Em 2019, fundamos a ANVINT — Associação Nacional das Vítimas de Internet, que presta orientação multidisciplinar a vítimas de crimes digitais.
Minha rotina é intensa, mas eu transito bem entre os escritórios, com apoio de colaboradoras excelentes. Ainda recém- -formada, decidi trabalhar apenas com mulheres, buscando acolhê-las. A vida e o mercado de trabalho sempre foram mais desafiadores para o sexo feminino. Não falo por experiência própria. Meus pais proporcionaram conforto para meu irmão e para mim. Ele era advogado criminalista; ela, professora de inglês e proprietária de duas escolas de idiomas. Havia harmonia e respeito em casa. Meus avós, gregos do Egito, moravam ao lado. Eram muito envolvidos em serviço comunitário. Depois, veio o meu marido, que é maravilhoso. Então, tive muitos privilégios. Mas, desde cedo, passei a enxergar além dos muros, desejosa de que as mulheres tivessem vez e voz no trabalho.
Voltando ao condomínio de Campinas: quando nos mudamos de cidade, alugamos o apartamento. Eu me afastei um pouco, exceto por advogar para o prédio em algumas questões pontuais, e aí percebi que alguma coisa não ia bem, pois os documentos que eu solicitava não me eram entregues. Havia, ainda, outro sinal de que a gestão estava errando em algo — os proprietários começaram a ir embora e não conseguiam alugar seus apartamentos. Foi então que uma nova condômina me procurou: haviam indicado meu nome para que formássemos uma dupla gestora: ela como síndica; eu, subsíndica. Houve boa conexão e já estamos na terceira gestão. A caneta é dela; eu dou suporte. Conseguimos regularizar a matrícula do condomínio após 30 anos da implantação.
Também realizamos manutenções que valorizaram os imóveis no mercado imobiliário. Quando assumimos a administração, encontramos até fossa não tratada, aberta. Hoje, o local está espetacular. Todo mundo está feliz? Não. Em condomínio, se você gosta muito de uma pessoa, concorda com ela e, de repente, ela não está mais na gestão — e até no prédio —, você pode ficar contra quem a sucedeu, mesmo que esse alguém entregue resultados. Há, também, quem simplesmente não gosta de você. E quem é síndico precisa entender que não gostar de alguém é um direito. Não gosta? Tudo bem.
Paralelamente às ações do prédio campineiro, iniciei minha atuação como síndica orgânica em Higienópolis. Eu advogara para o condomínio na gestão anterior, sempre de modo respeitoso, sem intervir na condução da síndica, que, aliás, fazia um bom trabalho. Candidatei-me ao posto porque conhecia as necessidades do condomínio e, com base na minha bagagem como advogada em outros prédios, eu poderia ser útil à coletividade. Algo que me incomodava era a constância de rateios. Ao ser escolhida síndica, aboli esse costume. Até hoje, fiz apenas um rateio, de 50% do custo da revitalização da fachada. Outra preocupação minha era o AVCB, porque o prédio havia passado por uma grande reforma, devidamente regulamentada, mas, ainda assim, necessitava de readequação às normas do Corpo de Bombeiros. A pendência foi resolvida.
O meu maior desafio, porém, foi lidar com um caso emblemático de acúmulo. Havia uma unidade de 170 m² habitada por um casal de meia-idade, cuja moradora era acumuladora de animais. Eles viviam com 84 pets, entre cães, gatos, uma ave e um jabuti, em condições insalubres. O odor afetava todo o prédio há pelo menos duas décadas. Algumas tentativas de solucionar o problema haviam sido feitas, mas nunca evoluíram. Quando eu assumi a gestão, pedi que confiassem em mim, pois conduziria a questão com estratégia, utilizando os instrumentos legais disponíveis, o que levaria cerca de dois anos — e levou.
Reuni provas com apoio dos moradores, ajustei a atuação da portaria para garantir acesso de autoridades — sabíamos que, no passado, ela proibira a entrada de oficiais — e, também, formalizei evidências do odor com ata notarial. A partir disso, avançamos com processos e autuações até obter acesso judicial ao imóvel. No dia da perícia judicial, foi preciso intervenção policial para que ela abrisse a porta da unidade. Os policiais mal conseguiram ficar lá dentro, onde os excrementos se concentravam em uma altura de meio metro no piso.
A moradora foi obrigada a reduzir os animais para dez, sob fiscalização semanal da Vigilância Sanitária. Os demais pets foram retirados do prédio por ela própria que, aos poucos, tentou descumprir a medida, trazendo novos animais, escondidos em bolsas e mochilas. Mas estávamos todos atentos, e denunciei à Vigilância. Ao final, a unidade foi colocada à venda pelo casal, que deixou o condomínio. Essa vitória teve um sabor especial para mim, mas destaco que resultou de um esforço coletivo. Foi ao encontro do que eu acredito como síndica: batalhar por um ambiente mais saudável e construir relações de confiança entre moradores, gestão e equipe. Todos saímos mais fortes.”
Tanila Savoy em depoimento concedido a Isabel Ribeiro
Matéria publicada na edição 322 maio 2026 da Revista Direcional Condomínios
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