Pela primeira vez, o mundo reúne sete gerações simultaneamente. No microcosmo condominial, Millennials e Baby Boomers são apenas parte dessa diversidade etária. As singularidades não devem ser rotuladas. Um olhar cuidadoso da gestão pode atender às diferentes necessidades e promover a integração da coletividade
Imagine a seguinte cena: as portas do elevador se abrem no térreo de um residencial. Saem uma mãe com o bebê e um avô acompanhado dos netos vestidos com uniforme escolar. À espera do elevador, estão um jovem em home office, com o delivery do almoço em mãos, uma idosa com seu andador e um garoto com fones de ouvido. Por um breve instante, todos se cruzam, refletindo uma realidade que, embora não seja etariamente incomum, marca um momento inédito na história: a sociedade conta com sete gerações contemporâneas. Essa diversidade representa um rico potencial humano, mas impõe desafios à gestão e à convivência nos condomínios.
Desde o ano passado, o mundo reúne as sete gerações vivas simultaneamente, segundo a consultoria australiana McCrindle Research. São elas: Geração Silenciosa, Baby Boomers, Geração X, Y (Millennials), Z, Alpha e Beta. A classificação tem sido amplamente utilizada em estudos sobre comportamento, consumo, mercado de trabalho e relações intergeracionais. A Geração Silenciosa abrange pessoas nascidas entre 1928 e 1945, hoje com 81 a 98 anos, enquanto, na outra ponta, a Beta engloba os nascidos a partir de 2025, que ainda estão na primeira infância.
Doutora e mestre em Psicologia Social, com expertise no nicho condominial, Tânia Fator esclarece que houve uma aproximação entre as condições que separam as gerações: “Essas condições são diferentes por fatores ambientais, sociais, econômicos, tecnológicos, etc. A mudança tecnológica, por exemplo, foi sendo constituída pelas gerações com intervalos cada vez menores. Isso produz mudanças nos costumes, nos hábitos, nas crenças, nos valores”, diz. “Sou da geração Baby Boomer; nossa tecnologia de comunicação era representada pela máquina de escrever mecânica. Então, é uma geração com a mentalidade da execução mais artesanal e uniforme, que exige um determinado tempo para produzir algo. O jovem da geração Alpha cresce junto com a IA generativa; a noção de tempo dele é instantânea e fluida”.
No contexto presente, há como driblar o choque geracional? Tânia salienta que o conflito deve ser percebido como algo inerente à condição humana, e não como problema, mas como oportunidade de crescimento nas questões que envolvem relacionamentos intergeracionais. “Precisamos construir um vínculo de confiança para chegar a um ponto de equilíbrio. O jovem atual pode ensinar como é a noção de tempo dele, que é para ontem, enquanto adultos da minha geração podem ensinar como é planejar as coisas para daqui a um ano, e a gente se encontrar no meio do caminho. Todos podemos aprender”. Em condomínios, ela ressalta que, se o síndico consegue gerenciar a aproximação entre diferentes faixas etárias, valorizando o que cada uma tem a oferecer, ele será um grande líder comunitário.
A psicóloga cita casos de interação intergeracional bem-sucedidas em dois condomínios na cidade de São Paulo. Em um deles, uma moradora propôs a criação de um clube de leitura, ideia encampada pela gestão, que disponibilizou um local na área comum para os encontros regulares dos interessados. No segundo, uma professora de corte e costura, com muitos retalhos em casa, notou o interesse das vizinhas em aprender a costurar e, mediante aprovação do condomínio, montou uma oficina, cujas peças produzidas são doadas a comunidades carentes. Tânia sugere, ainda, que jovens criem, por exemplo, oficinas para ensinar os mais velhos a usar smartphones. “Conforme o perfil e o tamanho do condomínio, é possível desenvolver a convivência de vizinhança”, acredita.
Betina Soldatelli, síndica profissional com formação em psicologia, faz parte da Geração Y e admira as gerações mais velhas. “Tenho alguns condomínios com público sênior. Eu gosto da conversa e do tempo do idoso. São pessoas que viveram a época das cartas, tão diferente do tempo de resposta do WhatsApp. Mas entendo que temos de nos manter atualizados para atender a todos os públicos.” Ela enfatiza que, em condomínio intergeracional, é imprescindível investir em uma comunicação multicanal. “Uma vez, uma moradora me procurou confusa com tantas opções: app, e-mail etc. Eu disse que ela poderia escolher apenas uma, mas que eu precisava utilizar várias delas porque cada pessoa prefere receber o comunicado de um jeito. Mas é desafiador administrar tantos canais”, constata.
Pós-graduada em Psicologia Positiva, Betina recorre ao conceito de forças de caráter (traços positivos que o indivíduo traz consigo) para destacar alguns aspectos geracionais. “Não se trata de estereótipos, nem é uma regra. Porém, é mais comum que os mais velhos tenham o senso de prudência e de justiça mais aguçados. E os mais novos se destaquem pela criatividade, senso de sustentabilidade e maior afinidade com a tecnologia”, diz. Em sua opinião, a coletividade lucraria com a interação geracional. “Mas existe falta de interesse.” Por sua vez, ela está aberta ao novo e teve uma grata surpresa. “Implantamos uma sala de entrega autônoma em um condomínio com público jovem, que se mostrou muito responsável com as encomendas. Deu supercerto.”
Assim como Betina, o síndico profissional Gustavo Moretti, pertencente à Geração X, também procura extrair o melhor do potencial dos moradores. “O síndico precisa ouvir as pessoas, seja qual for a geração. Elas podem trazer boas contribuições”, diz o gestor, retratando uma situação recente: “Administro um condomínio em Barueri em que implantamos interfone digital. Um dia, um morador da Geração Z, que trabalha com TI, me abordou para contar que havia conseguido invadir o software do aplicativo. A intenção dele era me mostrar que havia uma falha no sistema.”
Se, de um lado, Gustavo lida com nativos digitais, do outro, existem as gerações mais vividas. “Teve um senhor que me procurou em um condomínio, e eu não pude atendê-lo naquela hora. Então, ele escreveu uma carta relatando o assunto e pediu que me entregassem. E funcionou bem dessa maneira”, observa. Ele pontua que os mais velhos preferem conversar pessoalmente. “Esse público requisita mais a presença física, necessita ser acolhido por nós.” Já os jovens querem praticidade. “Embora esse público seja imediatista e impaciente no WhatsApp, prefere não interagir diretamente. Se você criar um mecanismo eficiente para atendê-los de forma autônoma, ficarão satisfeitos.”
Matéria publicada na Edição 325 – agosto/2026 da Revista Direcional Condomínios
Não reproduza o conteúdo sem autorização do Grupo Direcional. Este site está protegido pela Lei de Direitos Autorais. (Lei 9610 de 19/02/1998), sua reprodução total ou parcial é proibida nos termos da Lei.