Mauro Conte: de executivo multinacional a referência em sindicatura de alto padrão

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“Atuar na sindicatura é continuar minha carreira de gestor”   

Ex-executivo de multinacional, Mauro Conte é síndico orgânico há 31 anos e profissional há 12, tendo implantado quase 70 condomínios   

“Sou um síndico profissional de perfil reservado. Aos poucos, fiquei mais conhecido ao ministrar palestras e workshops no mercado condominial. Muitos me veem como especialista em gestão e implantação de prédios de alto padrão. Por trás disso, há uma longa trajetória. Nasci e cresci no Tatuapé. Meu pai era colorista têxtil, e minha mãe, dona de casa. Sou o caçula de quatro irmãos. Morei em uma casa pequena, com cachorro e galinheiro no quintal. Uma vida simples, apenas com o necessário. Tudo o que conquistei foi construído.   

Sou graduado em Comércio Exterior e me consolidei nessa área, na mesma empresa onde já trabalhava desde os 15 anos, uma multinacional alemã do segmento químico e farmacêutico. Ingressei como aprendiz, no RH, sempre atento às oportunidades de evolução. Cheguei menino, uma pedra bruta. Com os alemães, fui lapidado. Aprendi sobre comportamento, postura, comunicação, refinamento, pontualidade e comprometimento. A empresa foi uma escola. Trabalhei 25 anos entre alemães e suíços, porque, em determinado momento, a empresa alemã se fundiu com uma multinacional suíça.   

A trabalho, viajei por continentes, participei de negociações e apresentações internacionais. A empresa preparava seus executivos com treinamentos de liderança e gestão de crise. Em contrapartida, havia forte cobrança por resultados. Cheguei a ter, ao mesmo tempo, chefias na Suíça, na Alemanha e no México. Naquela época, eu não imaginava que tudo aquilo seria útil no mercado condominial. Hoje, por exemplo, consigo me manter tranquilo na mais conturbada das assembleias porque, no passado corporativo, vivi muitas situações de alta pressão.   

Eu me interessei por assuntos de condomínio aos 24 anos, quando me casei e fui morar em um prédio no Tatuapé. Passei a participar das assembleias para entender o destino dos rateios extras, porque os problemas do prédio continuavam ali. Comecei a conferir pastas e me tornei conselheiro. Em uma reunião, questionei uma obra no jardim que havia sido feita antes da pintura da torre. Como reformar o jardim antes de iniciar uma obra que iria sujar tudo de novo? Foi a minha primeira discussão condominial.   

Em 1995, já pai de um menino — a menina viria no ano seguinte —, mudei-me com minha família para um imóvel maior, em outro prédio do bairro. O edifício tinha apenas um ano, e o síndico estava de saída. Vi uma chance de colocar meus conhecimentos em gestão de processos em prol do condomínio e me tornei síndico orgânico. Dois anos depois, o dono da administradora de condomínios aplicou um golpe em vários prédios e desapareceu. A construtora me avisou, e corri para o banco a tempo de salvar o dinheiro do condomínio.   

Eu tinha amizade com a construtora, e esse episódio deixou outros prédios dela vulneráveis. Para ajudá-los, montei uma administradora no Tatuapé, ao lado da gerente-geral da administradora que havia fechado e deixado os funcionários à deriva. Em oito anos, fizemos cerca de 15 implantações e administramos mais de 30 condomínios. Eu ainda era executivo da multinacional, em Santo Amaro. Trabalhava na administradora à noite e aos finais de semana. Mas a jornada era exaustiva. Passei a carteira adiante.   

Em 2003, saí da multinacional e me tornei consultor na área petroquímica. Depois, em 2007, com dois ex-colegas das multinacionais, fundei uma distribuidora de insumos químicos industriais. Ao mesmo tempo, mudei-me para um condomínio com mais conforto, no Jardim Anália Franco. Aceitei ficar um ano como síndico na implantação. Estou lá até agora, mais de 20 anos depois. Não querem que eu saia. Um amigo desse prédio migrou para outro, de luxo, mas com uma série de problemas. Então, ele sugeriu que eu cuidasse também do prédio dele, na condição de síndico profissional.   

Na época, meu irmão mais velho, Luíz, ex-executivo de multinacional japonesa, achou a ideia promissora. Abri com ele uma empresa de sindicatura em 2014, tendo o mencionado prédio de alto padrão como primeiro cliente. Logo vieram outros, entre eles um enorme condomínio-clube na Vila Prudente, ao qual pude levar melhorias, como sistema de irrigação, sistema de água de reúso, gerador, e feira livre. Em seguida, veio a primeira grande implantação: um condomínio em Guarulhos, com mais de 400 unidades, que geri por nove anos. Outros condomínios foram chegando por indicações, a maioria de construtoras.   

Em implantações, o desafio é convencer o morador de que você não está ali a serviço das construtoras. Vícios construtivos sempre vão existir. Há condomínios que já querem partir direto para ação judicial. Sendo assim, tudo o que tiver de ser solicitado à construtora dentro da garantia acabará seguindo via judicial, o que não é bom, mas muitos não entendem. Claro que há casos em que não tem jeito, em que a construtora não dá retorno ao condomínio. Aí, sim, é preciso judicializar – eu já entrei com ação em três ocasiões. E também existem construtoras que acreditam que o síndico vai defender os interesses delas. A experiência me mostrou quais são as empresas que, de fato, estão preocupadas em corrigir falhas de seus produtos.   

Com o meu tempo cada vez mais dedicado aos condomínios, optei por permanecer na distribuidora apenas como sócio-investidor, até mesmo porque, em 2019, o Luíz recebeu o diagnóstico de um câncer raro e, em 2020, faleceu. Foi duro, mas continuei a desbravar o mundo condominial. Esse sonho, que era de nós dois, me deu forças para seguir nas horas difíceis da pandemia, quando os moradores vinham com tudo para cima dos síndicos — um período muito desafiador.   

Hoje, minha empresa tem 18 pessoas, incluindo a mais nova aquisição, que é minha filha e que se tornou sócia. Ela veio do ramo publicitário e agregou valor à nossa comunicação. Nos últimos anos, segmentei o atendimento no nicho de alto padrão e luxo, fatia que concentrava as minhas reeleições. Não foi nada premeditado, apenas houve melhor aderência. A minha bagagem corporativa foi ao encontro do que esse público exige. Talvez, em outro perfil de condomínio, meu estilo parecesse arrogante. Sei que, depois de identificar o meu nicho de trabalho, passei a atuar de forma mais confortável. Para mim, estar na sindicatura é prazeroso, é dar continuidade à minha carreira de gestor. No lugar do setor químico, entrou o ecossistema condominial, onde minha dedicação impacta cerca de milhares de famílias. Também reconheço que posso contribuir formando pessoas, transferindo todo o know-how, o que me traz grande satisfação.”        

Mauro Conte, em depoimento concedido a Isabel Ribeiro


Matéria publicada na edição 323 junho 2026 da Revista Direcional Condomínios

Autor

  • Jornalista Isabel Ribeiro

    Jornalista apaixonada desde sempre por revistas, por gente, pelas boas histórias, e, nos últimos anos, seduzida pelo instigante universo condominial.